Se os jornalistas não sabem que há ossos que não se devem apanhar, deveriam, pelo menos, saber a altura em que devem largar o osso…
Colocado por Paula Simões em Jornalismo, tags: Jornalismo, licenciaturaQuando um jornal de referência sente necessidade de justificar uma notícia, nas próprias páginas em que a notícia sai, facilmente se intui que a coisa pode correr mal.
Há dois dias atrás, altura em que o Público colocava no seu site perguntas a que o primeiro ministro deveria responder, estive para escrever um post interrogando-me se o objectivo era dizer ao leitor o que ele, leitor, deveria questionar; se seria um recado ou TPC para o primeiro ministro ou se seria um “olhem, olhem nós perguntámos, ele é que não respondeu!”.
Decidi, no entanto, não publicar esse post.
Agora, depois da entrevista de ontem, apetece-me falar disto.
Depois da entrevista, o director do Público, já veio dizer que uma das coisas que não foi explicada foi o facto do primeiro ministro decidir fazer transferência do ISEL para a UnI. O facto de o ISEL dar um grau que equivale a uma licenciatura e a UnI dar o grau de licenciatura parece-me bastante aceitável, mas talvez o director do Público não tenha ouvido essa parte?
Foi ainda mencionado o facto de no ISEL, o aluno ter de fazer 12 cadeiras e na UnI apenas 5, mas o aluno já tinha feito 10 cadeiras no ISEL, quando pediu transferência para a UnI, pelo que me parece lógico que tenha havido equivalências e na UnI, o aluno fazer menos cadeiras…
Outra questão que me parece assaz absurda é o facto de haver uma acusação de existirem pressões sobre os jornalistas.
Uma coisa é um jornalista ser ameaçado, ainda que veladamente, outra é ser pressionado e sejamos correctos: os jornalistas estão constantemente a ser pressionados, faz parte da profissão, todos os dias em todas as notícias. Fontes a telefonarem a jornalistas, sem um primeiro contacto deste (que nem foi o caso) é regular e ainda vos digo que é assim que muitos jornalistas arranjam boas histórias.
O jornalista ouve as opiniões e decide em consciência. Quem não consegue lidar com pressões, tem bom remédio: há para aí muitas outras profissões para além do jornalismo.
Não simpatizo com o primeiro ministro ou com a política subjacente, mas neste caso, considero grave que sejam feitas acusações, sem provas, derivadas de um post num blog qualquer, com o destaque que se deu.
Está a acontecer com a blogosfera o que acontecia com os barricados, há uns anos atrás. As televisões tiveram de fazer um acordo de não darem notícias sobre pessoas barricadas porque as pessoas começavam a usar esse expediente para resolverem os seus problemas.
Antigamente, uma pessoa barricava-se num centro comercial, agora uma pessoa escreve num blog. E a comunicação social fomenta… e vai continuar a fomentar, que os jornais já fizeram notar que vão continuar a investigar, hmm…, investigar qualquer coisa…
A comunicação social criou um acontecimento (e eu que pensava que os pseudo-acontecimentos eram criados por assessores de imprensa…) e prestou um mau serviço ao país: enquanto se discutem certificados de habilitações, não se discutem problemas, esses sim, verdadeiramente importantes para o país.
“Dou-te um pontapé no joelho, para não te lembrares da dor de dentes” – Normalmente, isto é feito pelos políticos, quando querem desviar a atenção de algo. Quando é a comunicação social a fazê-lo, é sinal de que as coisas vão muito mal por este país… mas isso já todos sabemos, não é?
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