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Quando um jornal de referência sente necessidade de justificar uma notícia, nas próprias páginas em que a notícia sai, facilmente se intui que a coisa pode correr mal.

Há dois dias atrás, altura em que o Público colocava no seu site perguntas a que o primeiro ministro deveria responder, estive para escrever um post interrogando-me se o objectivo era dizer ao leitor o que ele, leitor, deveria questionar; se seria um recado ou TPC para o primeiro ministro ou se seria um “olhem, olhem nós perguntámos, ele é que não respondeu!”.
Decidi, no entanto, não publicar esse post.

Agora, depois da entrevista de ontem, apetece-me falar disto.

Depois da entrevista, o director do Público, já veio dizer que uma das coisas que não foi explicada foi o facto do primeiro ministro decidir fazer transferência do ISEL para a UnI. O facto de o ISEL dar um grau que equivale a uma licenciatura e a UnI dar o grau de licenciatura parece-me bastante aceitável, mas talvez o director do Público não tenha ouvido essa parte?
Foi ainda mencionado o facto de no ISEL, o aluno ter de fazer 12 cadeiras e na UnI apenas 5, mas o aluno já tinha feito 10 cadeiras no ISEL, quando pediu transferência para a UnI, pelo que me parece lógico que tenha havido equivalências e na UnI, o aluno fazer menos cadeiras…

Outra questão que me parece assaz absurda é o facto de haver uma acusação de existirem pressões sobre os jornalistas.
Uma coisa é um jornalista ser ameaçado, ainda que veladamente, outra é ser pressionado e sejamos correctos: os jornalistas estão constantemente a ser pressionados, faz parte da profissão, todos os dias em todas as notícias. Fontes a telefonarem a jornalistas, sem um primeiro contacto deste (que nem foi o caso) é regular e ainda vos digo que é assim que muitos jornalistas arranjam boas histórias.
O jornalista ouve as opiniões e decide em consciência. Quem não consegue lidar com pressões, tem bom remédio: há para aí muitas outras profissões para além do jornalismo.

Não simpatizo com o primeiro ministro ou com a política subjacente, mas neste caso, considero grave que sejam feitas acusações, sem provas, derivadas de um post num blog qualquer, com o destaque que se deu.

Está a acontecer com a blogosfera o que acontecia com os barricados, há uns anos atrás. As televisões tiveram de fazer um acordo de não darem notícias sobre pessoas barricadas porque as pessoas começavam a usar esse expediente para resolverem os seus problemas.
Antigamente, uma pessoa barricava-se num centro comercial, agora uma pessoa escreve num blog. E a comunicação social fomenta… e vai continuar a fomentar, que os jornais já fizeram notar que vão continuar a investigar, hmm…, investigar qualquer coisa…

A comunicação social criou um acontecimento (e eu que pensava que os pseudo-acontecimentos eram criados por assessores de imprensa…) e prestou um mau serviço ao país: enquanto se discutem certificados de habilitações, não se discutem problemas, esses sim, verdadeiramente importantes para o país.

“Dou-te um pontapé no joelho, para não te lembrares da dor de dentes” - Normalmente, isto é feito pelos políticos, quando querem desviar a atenção de algo. Quando é a comunicação social a fazê-lo, é sinal de que as coisas vão muito mal por este país… mas isso já todos sabemos, não é?

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Foi ontem. Foi ontem que vi, acho que pela primeira vez, um jornal justificar uma notícia, na própria notícia.
A mim, sempre me ensinaram que se preciso de justificar uma notícia ou um trabalho, é porque ele está fraquinho. Quando o trabalho é bom, ele justifica-se por si próprio.
Ora, já sabíamos que a blogosfera dava cartas ao jornalismo português. E confirma-se: a cabeça da reportagem do destaque de ontem do Público começava com “É um dos temas do momento na blogosfera” e a Nota da Direcção Editorial começava também com “Há cerca de um mês que se avolumaram, na blogosfera, referências múltiplas, algumas delas entretanto reproduzidas em jornais ou citadas nas rádios…”
Pois o Público, justificou com esta Nota da Direcção Editorial, o trabalho do seu jornalista: o Público queria acabar com os boatos. Sim, que aquele jornal de referência não usa o critério do curriculum académico para avaliar um político. É por isso que agora durmo muito mais descansada, por saber que existe um jornal português que coloca entre os seus objectivos acabar com os boatos e, principalmente, que mo faz saber. Também fico muito, muito contente por o Público me dizer que aquela investigação já serviu para alguma coisa: corrigir a biografia do sr. primeiro-ministro no site oficial.

Pois, não fosse dar-se o caso dos leitores não perceberem como é boa e importante aquela reportagem!

Se bem que, depois de ler, a seguir, a nota do sr. primeiro-ministro ao Público, fiquei foi com a sensação que a tal nota da Direcção Editorial mais parecia uma resposta ao descontentamento daquele.

Quem faz jornalismo ou quem faz investigação científica sabe que é muito duro andar uns dias, como parece que foi o caso do primeiro, ou uns anos como muitas vezes é o caso do segundo, a fazer investigação, para concluir que afinal não temos aquela grande história ou aquela grande descoberta, que nos permite escrever uma notícia ou um artigo científico de várias páginas. No caso da investigação científica, muitas vezes, é importante ainda assim fazê-lo, no caso do jornalismo é pior: não há meio termo. Ou é notícia ou não é.

Da reportagem, também não ficamos a saber nada de muito concreto, nem sequer mata os tais boatos: o processo da licenciatura na Universidade Independente tem falhas, há documentos não assinados, sem data nem carimbo e elementos contraditórios.

Na posse desta informações, teria sido muito mais interessante fazer uma reportagem sobre a forma como as Universidades fazem o registo dos processos dos alunos. Quem não conhece gente que coloca no seu curriculum vitae uma ou outra pós-graduação que efectivamente não tem?

Sim, é importante saber se um primeiro-ministro agiu sempre de “forma limpa, clara e legal”, mas não são precisas quatro páginas de destaque para isso. Quatro páginas de destaque seriam precisas, se efectivamente se se confirmassem os boatos.

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+ Soube há pouco tempo do suplemento Ípsilon, do Público. Vejo no site, hoje, um trabalho sobre o meu querido Alexandre O’Neill. Aqui podem ver um trabalho multimédia e em cima é possível fazer o download da edição.

- No dia 14, eram os beijos no YouTube, hoje são as gargalhadas no YouTube. Vocês que estão aí mais perto: o Público fez alguma parceria com o YouTube que me tivesse escapado ou quê?

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