Meu Querido,
Que alegria receber notícias tuas! Não imaginas a ansiedade com que costumo esperar as tuas cartas, que só acalma um bocadinho no tempo que levo a saboreá-las e a responder-te. A Luisinha caçoa de mim nessas alturas e chama-me tolinha. Ah! Bem sei que é uma tolice, mas que queres? As tuas palavras fazem-me sentir-te mais próximo de mim.
As tuas palavras e as memórias. No outro dia a Mariazinha foi dar comigo, no banco do jardim, com o livro no regaço, alheada de tudo e de todos. Imagina que teve de me abanar! Fiquei tão embaraçada, que tartamudeei uma desculpa qualquer, que soou mesmo a desculpa. Durante uns dias, apanhei-a a observar-me desconfiada, por várias vezes!
Em que pensava eu? Rememorava a primeira vez que falámos, ou melhor, que me dirigi a ti, lembras-te? Que audácia dirigir-me a um cavalheiro, com quem nunca tinha falado! Mas a minha curiosidade era sincera. A Luisinha diz que há-de ser a minha desgraça! Que não fica bem a uma senhora ser curiosa. Que a curiosidade sobre as coisas deve ser deixada para os homens! Que em vez de andar a querer saber “coisas”, eu devia era treinar mais o meu piano. E ela tem razão! Mas eu nunca conseguirei tocar com a mestria da Luisinha.
O Conde de Signey chegou ontem à quinta e trouxe umas novas partituras de música popular americana! Popular, imagina tu! Diz ele que já venderam 1,000,000 de partituras! De forma, que nos vamos aventurar pela música popular hoje ao serão!
O que é óptimo para variar. A D. Amélia diz que estou cada vez pior com o meu Bach. Que nunca se viu ninguém piorar tanto, em tão pouco tempo! Diz ela na sua voz estridente “A menina, em vez de andar a fazer essas mixórdias da química no barracão, devia era treinar o seu piano!”
Ora, pois eu não vou a todas as aulas que ela dá e não treino pelo menos uma vez por dia?
Enfim, meu amor, talvez eu não tenha mesmo queda para o piano.
Tenho de ficar por aqui, que vou enviar-te esta cartinha pelo Manuel, que sem contarmos, apareceu aqui hoje e me deu para riscar estas linhas muito à pressa.
Mil beijos daquela que te quer muito,
PS - A mamã continua aflitíssima com o enxoval, como se não tivesse eu enxoval de sobra!

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