Há pouco tempo vi, na RTP 2, uma entrevista (não me lembro dos intervenientes) em que se discutia a língua portuguesa e as suas variantes.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi a questão do houveram, verbo haver quando não utilizado como auxiliar, que eu, incauta, usava sem atenção à sra. Gramática.
Dizia o entrevistado que Eça de Queiroz, entre outros, tem nos seus manuscritos o verbo grafado daquela maneira, tendo sido corrigido pelos editores, de forma a seguirem a imposição da gramática.
Eu não gosto de gramáticos, nem de pessoas que decidem, assim, sem mais nem menos, aportuguesar (ou não) palavras, fixando-as em dicionários, como o que aconteceu com o Dicionário da Academia.
Parece-me a mim, que a língua é viva e vale pelas suas diferenças. Renova-se pelo uso que dela fazem os falantes. Claro que há que ter regras, mas a minha questão é, até onde estes senhores fixadores têm o direito de ir?
Deixo-vos aqui um excerto de um texto do Professor Ivo Castro e que pode ser lido na íntegra aqui.
De facto, as gramáticas normativas apoiam-se fortemente nas atestações dos escritores para justificar as regras que propõem; quando as consultamos, sabe bem verificar que a construção que nos parecia duvidosa afinal é admitida pela gramática, porque um grande homem a utilizou nos seus livros. Mas atenção, até mesmo o escritor pode ter dúvidas: contava Celso Cunha que Augusto Abelaira, incerto quanto a uma construção sintáctica infelizmente não identificada, pegou na Nova Gramática do Português Contemporâneo para verificar se ela estava atestada; estava, mas atestada por uma citação do próprio Abelaira, que me confirmou a anedota. Quando as coisas se passam desta maneira, algumas perguntas se erguem: se o escritor tinha dúvidas permanentes quanto à construção, estaria em condições de fornecer sólido respaldo ao gramático? Se Celso estivesse ciente das hesitações de Abelaira, teria mantido a citação? E, sem ela, a regra? O que um escritor escreve, porventura desviadamente, torna-se logo português de lei? Se fosse assim, como explicar que as gramáticas normativas apenas permitam que o verbo haver tenha flexão plural enquanto auxiliar e que, por conseguinte, a frase “houveram risadas“ deva ser considerada incorrecta? Sucede que esta frase, juntamente com muitos outros exemplos de houveram e haviam, se encontra no manuscrito da Tragédia da Rua das Flores, escrita pelo punho de Eça de Queiroz. Em vão a procuraremos nas suas edições, pois os editores corrigiram a língua do autor em nome da gramática normativa, tal como eliminaram do manuscrito do Amor de Perdição numerosas grafias fonéticas de grande interesse dialectal e figurativo, tal como retiraram da Seara de Vento a maior parte das construções gerundivas (e alentejanas) de Manuel da Fonseca. Desconheço as circunstâncias exactas em que se inseriu na gramática portuguesa a ideia de que haver com o sentido de “existir, ter existência“ é um verbo exclusivamente impessoal, quando pelo menos alguns escritores e muitos falantes pensam e agem de outro modo. Trata-se de um ponto de história da gramaticografia que está à espera de ser estudado por algum erudito inteligente.

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