Soube há pouco tempo, pela embaixada portuguesa em Helsínquia, que não posso votar no referendo sobre a alteração à lei da Interrupção Voluntária da Gravidez.
Disse-me, num tom triste, o simpático senhor que me atendeu, que muitas pessoas já haviam ligado antes para saber como proceder.
Parece que a lei dos referendos portuguesa é muito restritiva: só podem votar cidadãos portugueses que estejam em território nacional, no dia do voto.
Há uma excepção, denominada voto antecipado, para militares, forças armadas, ferroviários e camionistas, que podem pedir o voto antecipado se souberem que vão estar fora do país no dia da votação. Mas se no dia do voto antecipado não puderem estar em Portugal, não podem votar na mesma.
Ainda me lembrei de apanhar um voo, mas é-me impossível.
Não concordo com o referendo à lei sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez. A lei já devia ter sido aprovada há muito tempo. Mas se pudesse ir votar, iria votar sim.
Quem me conhece sabe que tento ver sempre o(s) outro(s) lado(s) da história e, mesmo não concordando, aceitá-los como uma opinião legítima.
Neste caso, não há outro lado da história.
Por essa web fora tenho lido dos argumentos mais abjectos utilizados em defesa do não.
Analisemos alguns:
- O argumento do direito à vida
Este é talvez dos mais falaciosos argumentos que existe. Quem defende o não com este argumento não está a defender o direito à vida. Está a defender o direito a algumas vidas, àquelas que eles, que votam não, decidiram que tinham direito a ela.
Analisemos este ponto. Votar não, significa que querem manter a lei como está. Todos concordarão que se a lei se mantiver, a situação irá manter-se.
Não? Sim. Esta lei não tem funções de lei. As sanções que as leis impõem não servem para castigar, per se. As sanções servem para dissuadir comportamentos. E esta não está a dissuadir comportamentos. Quem pode, faz um aborto fora do país, quem não pode fá-lo arriscado-se a graves complicações de saúde e até a morrer. Não me parece que uma mulher que faz uma acção correndo estes últimos riscos possa vir a ser dissuadida de o fazer por poder ir parar a tribunal…
Pelo que, dizia eu, a situação vai manter-se: vamos continuar a ter mulheres que abortam e vamos continuar a ter mulheres que morrem por fazê-lo.
Se a lei for aprovada, as mulheres vão poder dirigir-se a um hospital, onde vão ser recebidas e acompanhadas.
Cada vez que alguém, que vai votar não, começa a falar comigo e a argumentar que é uma questão do direito à vida, só lhe pergunto o que pensa nos casos de violação, por exemplo. Façam o teste, a maior parte dos votantes do não, responder-vos-á que nesse caso já se pode… (previsto inclusive na lei que eles querem manter, veja-se)
Talvez para essas pessoas a vida fruto de uma violação não tenha tanto direito como as outras em causa neste referendo…
É por isso que não compreendo nem aceito que a criação de uma lei do meu país possa depender de pessoas que se acham no direito de decidir quem pode ou não viver.
- o argumento do pai
Começo já por dizer que conheço homens que são e que darão pais extremosos e carinhosos, mas também penso que não há muitas dúvidas que uma fatia significativa dos abortos que se realizam se devem ao facto do “pai”, à vista de uma gravidez, desaparecer por artes mágicas…
É por isso que não compreendo nem aceito que a criação de uma lei do meu país possa depender da existência num boletim de voto de um pai, cujo “desaparecimento” voluntário pode estar na causa de um aborto.
- o argumento da religião
Neste não há muitas dúvidas.
Não compreendo nem aceito que a criação de uma lei do meu país, Estado de Direito e Laico, possa depender de crenças religiosas. E considero grave que um Governo sabendo disto, o permita.
- o argumento dos números
Tendo em conta que o aborto é ilegal em Portugal, não existem números. Dizer que os números vão aumentar (ou diminuir) é desonesto.
É por isso que não compreendo nem aceito que a criação de uma lei do meu país possa depender de um argumento sem qualquer fundamentação.
Podia continuar. Há muitas coisas que não compreendo e não aceito e tudo bem espremido resume-se muito bem num princípio democrático, atropelado e repudiado pelos votantes do não.
É execrável que lhes seja dada essa possibilidade.
Tópicos (RSS)
Argumento da vida: Marcelo Rebelo de Sousa, defensor do não, argumenta, entre outras coisas, que existe a pilula do dia seguinte gratuita. Será que este senhor não sabe que isso já é uma forma de aborto, praticada nos primeiros dias?
Em relação ao pai: Não há maneira de saber, às 10 semanas, quem é o pai.
RedScout: Jovem, se já se deu a fertilização já lá está tudo o que é necessário para saber quem é o pai. Com uma maquina de ecografia e uma pequena agulha podes retirar algumas celulas de liquido amniotico e fazer os testes de paternidade. Se eu estiver errado alguem me diga, mas penso que “is that simple”.
Parece-me que não é assim tão simples…
Mas, como nem eu nem tu somos dessa área, esperemos que alguém nos possa elucidar.
O facto de “nem eu nem tu” nunca me impediu de procurar as respostas. Quem fica parado á espera ainda fica como a nêspera.
Em pouco segundos encontrei: isto sobre testes de paternidade não introsivos. Estes funcionam apartir das 12 semanas ,e talvez mais cedo. Procurando um pouco mais (aka ir ao google mesmo e não ficando pela wikipedia) podes encontrar isto que mostra que podes fazer colheita do tal liquido apartir das 10 semanas.
Eu já tinha lido algo sobre isso das 12 semanas. Confirmas, portanto, que não é possivel identificar o pai…
Não
. Porque se procurares mais consegues ver que já existem tecnicas para ver o sexo ás 5-6 semanas. Logo se dá para ver o sexo tambem dá para ver a paternidade.
Isto é um sub-tema de uma questão mais ampla, que é da posição do pai na questão do aborto. Faz-me lembrar o Sr na outra thread que dizia que as mulheres que praticassem o aborto deveriam ter as trompas laqueadas. Eu acho que ele não iria dizer isso se lhe quisessem tambem fazer uma vasectomia.
Cara Paula,
Dizeres “Nesta casa, escrevem quatro pessoas. Cada post é assinado pelo seu autor e as opiniões nele expostas são apenas da responsabilidade de quem os assina.” na tua nota prévia e neste caso até parece interessar pouco. Ainda não vi nenhum dos quatro ser a favor do NÃO, mas se calhar foi um artigo que me escapou.
No entanto, há ainda muito mais argumentos e, provavelmente muito mais gente interessante a lêr do que os que aparentemente leu:
Blogues pelo NÃO, também de gente comum que os tem para outras coisas.
Os meus modestos artigos sobre a questão.
Sobre o PAI:
Chorionic Villi Sampling (CVS). During the 10th to 13th week of pregnancy, a small sample can be taken from the placenta, a membrane that partially surrounds the developing fetus. This procedure is performed either transcervically (through the vagina) or transabdominally (through the abdominal wall).
A décima semana está incluída, como é por demais evidente. Não é feito antes por ser evidentemente um risco muito grande para o feto mas é possível fazê-lo antes mesmo que matando-o.
Como o Aborto a Pedido da Mulher é até à décima semana é evidente que o pai deveria ter uma opinião.
Segundo, se o PAI for o MARIDO (ou que viva maritalmente) acho que é fantástico apoiarem esta opção da mulher enganar o dito e poder calmamente escondê-lo. Muito feminista, sim senhora. Mas isto já é do plano moral e para a Lei que se perspectiva no caso do SIM ganhar isso é uma insignificância de menor valor.
Até mais.
Só mais isto sobre a possibilidade dos testes de paternidade:
“A parede do blastocisto converte-se na camada externa das membranas (córion) que rodeiam o embrião. Uma camada interna de membranas (âmnio) desenvolve-se entre os 10.º e 12.º dias e formam o saco amniótico. Este enche-se de um líquido claro (líquido amniótico) e estende-se para envolver o embrião em desenvolvimento, que flutua no seu interior.”
no Manual da Merck
Técnicamente é possível fazer os testes a partir do 13º dia. Agora a segurança é outra coisa.
Também os testes da Trisomia21 e outras malformações congénitas só são efectuados à 10ª semana.
Até mais.
Sobre o facto de não poder votar… Bom! É a partidocracia que temos que tenta sempre abafar a sociedade civil e a opinião dos cidadãos.
O aborto só está em referendo porque lhes convém lavar as mãos de assunto tão incómodo, caia a coisa para que lado cair, ou então não tinham a Lei já aprovada na generalidade só à espera dos resultados para baixar à discussão na especialidade.
E, já agora, olhem que o que eles dizem sobre as medidas de apoio à mulher não estão lá incluídas de todo… e nem acredito que venham depois a estar se o SIM irrestrito ganhar.
Até mais.
Caro Mário
Se ler o seu primeiro parágrafo tem logo a resposta à sua dúvida: interessa porque da mesma forma que não viu nenhum dos quatro a ser a favor do Não, também não viu nenhum dos restantes três ser a favor do Sim.
Quanto ao pai, acho que fui bem clara. Porque se há-de dar opinião ao pai, quando este é, quem sabe muitas vezes, responsável pela mulher fazer o aborto? Ou não lhe parece credível a situação (em casos em que a mulher quer abortar) de quando aparece o filho, desaparece o pai?
O sr. acredita realmente que haverão muitas situações em que uma mulher apoiada pelo companheiro ou marido decida ainda assim pelo aborto?
Eu já percebi que o sr gosta da tese da rameira: são todas umas vadias, querem livre-trânsito para o deboche” e, acrescento eu, para si isto deve ser uma artimanha das mulheres contra os homens, mas deixe-me dizer-lhe que está redondamente enganado.
Se o sr cultivar uma relação com uma mulher e apoiá-la tenho sérias dúvidas que essa mulher vá fazer um aborto sem discutir o assunto consigo ou que o faça à revelia “enganando-o”.
Tendo em conta o que eu defendi anteriormente, não aceito que o argumento “a palavra pai não consta da pergunta” seja válido para votar não.
Tenho lido atentamente todos os posts e respectivos comentários. E acho muito interessante todos os pontos de vista e as discussões que deles se geram, pois assim as palavras não saiem por sair, mas por terem sido pensadas (assim penso eu…)
Nesta questão do aborto tenho tentado manter-me fora das discussões porque acabo sempre por não conseguir manter a calma com os argumentos demagógicos dos apoiantes do NÃO. Mas desta vez foi inevitável..
Será que se questionam que quando uma mulher decide fazer isso não é uma decisão tomada de ânimo leve? Tudo o que o aborto trás quer fisica quer psicologicamente para uma mulher é muito mais doloroso que qualquer interrupção na formação de umas células em crescimento (note-se: eu sou da área de ciências).
Esta alteração da lei servirá apenas para não rotular as mulheres como criminosas por o fazerem, porque certamente terão motivos muito fortes para o fazer.
Não acredito que um casal com uma relação saudável venha sofrer uma situação destas, ou que a “mulher engane o dito e possa calmamente escondê-lo”, não são certamente em situações ditas normais que se ponderará fazer aborto ou não, não acredito que haja mulher alguma que queira usar o aborto como método contraceptivo, é completamente absurdo!
Podem dizer: “mas a lei que está em vigor já contempla todas essas situações…” e etc, mas há uma questão que não se lembram, e como disse em conversa um psiquiatra amigo e sabedor, muitas mulheres que passam por situações de violação (por exemplo) sentem vergonha de falar do que passaram, todo o terror psicológico que daí resulta…, e ainda por cima engravidarem…, fazerem exames no hospital para se provar que foram violadas para ser permitido o aborto sem que ela vá presa por isso! É humilhante e tenebroso…
A questão como vêm não é assim tão simples.
Em relação à opinião do pai…, como diz a Paula, o pai será em muitos destes casos (na maioria até) o responsável pela decisão de a mulher fazer o aborto. E como já referi acima, não acredito que numa relação dita saudável essa decisão fosse apenas tomada por um (a mulher). Tudo o resto…, é o corpo da mulher que sofrerá alterações durante 9 meses, alterações de humor, físicas, psíquicas, limitações, etc…
Eu defendo o SIM: a mulher não deve ser vista como uma criminosa por decidir poupar-se a ela e à criança de uma vida de inferno!
Sr. Mário Silva: Pois de mim ainda não me viu a defender nenhuma tese, nem pelo Paulo Sacramento, nem pelo Froggy.
Nesse contexto a nota da Paula simplesmente vem reforçar algo que os leitores da casa sabem: “Existe total independência e liberdade nos temas aqui tratados.”
Mas para que fique claro: Eu voto SIM. Não pelas razões que aqui foram faladas (tenho as minhas e em privado falei delas).
O sr. acredita realmente que haverão muitas situações em que uma mulher apoiada pelo companheiro ou marido decida ainda assim pelo aborto? – Paula
Apoiada não deve haver muitas.
Seguem respostas a vários dos interlocutores. Desculpem se não os menciono mas quem para fôr saberá.
Quanto ao resto acho mesmo melhor lerem a Lei que já está aprovada na generalidade e talvez percebam que esta Liberalização não é precisa para nada para que os abortos se possam fazer na mesma e até de forma perfeitamente legal. [1][2] e [3]
Sabia que José Magalhães, deputado do PS e uma das pessoas que escreveu a pergunta do referendo diz que o objectivo da lei do aborto foi facultar a, e cito, «criação e funcionamento legal de estruturas privadas de IVG (…)»? Eu indico-lhe o livro onde ele escreveu isso se quiser.
Sabia que o Governo, para aliviar os tribunais, JÁ APROVOU uma Lei para não levar a julgamento os crimes com penas até 3 (TRÊS) anos (um deles o aborto)? Lei Quadro de Política Criminal, Lei nº 17/2006 de 23 de Maio.
Sabia que a maior parte dos processos que foram a julgamento o foram por denúncia do pai? [4]
Sabia que em quase todos os países onde o aborto é legal a mulher que deseje abortar tem de pagar, é informada das alternativas e tem de se sujeitar a um tempo de reflexão? Em Portugal vai ser diferente.
Sabia que se o SIM ganhar Portugal, China e Coreia do Norte vão ser os países em que o aborto é totalmente livre, sem tempo de reflexão, realizado em adultos e menores (sem consentimento paternal) e pago na hora pelos impostos do Estado e sem qualquer taxa moderadora indexada aos rendimentos da abortante?
É esta a “modernidade” que queremos?
Não ponham palavras na minha boca que eu não disse. E, já agora, para as rameiras haverá sempre a possibilidade de irem a Espanha ou a Ingalterra e assim nem é com o meu dinheiro; porque para as que realmente precisarem a Lei já lhes faculta isso. A actual em vigor e a futura mesmo sem “a opção da mulher”.
Isto não são argumentos atirados para o ar. São simples factos, públicos e comprováveis por qualquer um que os queira realmente saber.
Até mais.
Podia continuar. Há muitas coisas que não compreendo e não aceito e tudo bem espremido resume-se muito bem num princípio democrático, atropelado e repudiado pelos votantes do não.
É execrável que lhes seja dada essa possibilidade. – Paula Simões
Isto, sim, é que é uma opinião do mais democrático possível.
E, aproveito mais uma vez para a elucidar, quem quer fazer o REFERENDO é o PS MESMO JÁ TENDO A LEI APROVADA NA GENERALIDADE.
Desculpe lá mas está a irritar-me um bocado esta atitude do SIM de insultar quem quer que discorde da sua opinião de forma, essa sim, algo execrável.
Se isto está como está a culpa é do Partido SIM-cialista que quer “lavar as mãos” qual Pilatos, e vir depois dizer que os 10 a 30 milhões de euros a gastar — segundo o estudo que já está no Ministério da Saúde — são da responsabilidade do Povo. O Povo decidiu e eles acatam, mas só quando lhes convém, claro.
E é claro que para outras coisas não haverá dinheiro.
Querem abortos.
Façam a Lei nesse sentido.
Não nos peçam é para pactuar com ela.
Cobrem-nos a quem puder pagar e cobrem taxa moderadora às outras.
Porque hei-de eu pagar uma taxa moderadora se o médico me decidir internar no hospital e elas nada?
Porque hei-de eu pagar uma taxa moderadora se o médico me decidir operar no hospital e elas nada?
Isto sim é que é bem execrável e um insulto aos que cá vivem e são pobres ou de classe média.
Venha para cá viver outra vez e daqui a dois ou três anos eu quero ouvir a sua opinião sobre esta corja toda, da Esquerda à Direita.
Até mais.