Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Fernando Pessoa

6 Responses to “Quando olho para mim não me percebo - Álvaro de Campos”
  1. Que engraçado. Um soneto do Álvaro de Campos. Acho que desconhecia, e se conhecia não dei por isso.
    Sou um inimigo moderado de sonetos. Enervam-me, não sei porquê, mas o Álvaro de Campos, ah, nunca me enerva. :)

  2. Oh, eu sei que isto não é um comentário para aqui, mas não tinha outro sítio onde o pôr… Eu fui o primeiro a ver as mudanças no blog! ;-)

  3. Sim! O blog está melhor! Mind Booster, realmente deves ter sido o primeiro… esse comentário é do dia 4 de Abril :)

  4. Eu acho que fui o primeiro, porque ia fazendo refesh e vendo mudanças…

  5. 4 OCR49U4BC30MX

  6. Poema bonito.

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