Mentiram-me. Há distâncias que minimizam a importância da mentira. Mas enquanto a mentira deixa de ser importante, a importância do facto de termos acreditado nela, permanece. Temos de nos imobilizar para pensar e verificar que há muitas coisas que nos dizem, de propósito ou não, que, apesar de serem mentira e nós o intuírmos, acabamos por acreditar porque queremos, porque gostaríamos que assim fosse. Porque seria tão mais fácil. Porque seria tão mais simples.
Durante a viagem viu um homem apaixonar-se por uma andróide com movimentos retardados. Se lhe era dito algo que a fazia chorar, as lágrimas só brotariam no dia seguinte.
O homem pediu à andróide que fossem embora juntos, mas ela nunca respondeu. O homem concluiu que a andróide não respondia, não por ter os movimentos retardados, mas porque amava outro homem.
Ele, sentado na cadeira, que via os movimentos, que surpreendia os olhares e os silêncios ficou a pensar que os movimentos retardados poderiam bem ser a causa da perda do amor.
Mas quando pensou isto, lembrou-se de alguém que lhe havia dito:“recuso-me a acreditar que podemos perder alguém verdadeiramente importante só porque nos atrasamos”
E isso descansou-o.
Não há descanso possível. O descanso contínuo conduz à inércia e esta vai minando tudo à volta. É necessário, é crucial, sentirmo-nos inquietos porque é esta nossa inquietude que nos permite construir as coisas.
E quanto a mim, ainda bem, que este final adequa-se melhor:
Ele, sentado na cadeira, que via os movimentos, que surpreendia os olhares e os silêncios ficou a pensar que os movimentos retardados poderiam bem ser a causa da perda do amor.

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