Foi este cavalheiro que me chamou a atenção para a questão que pulula por aí, em blogs e jornais, sobre o romance histórico de Miguel Sousa Tavares.

A resposta de MST, transcrita aqui, tem uma frase tão verdadeira como crucial para o exercício do jornalismo.

Debalde, tentei explicar ao enxame de jornalistas que imediatamente me caiu em cima que o simples facto de darem eco àquele blogue anónimo, sem verificarem previamente o fundamento da acusação gravíssima que me era feita, equivalia a transformar uma mentira privada, ditada pelo despeito e inveja, numa calúnia produzida à vista de milhares.

O problema não está só nos blogs, está também nos media.
Todos sabemos que os media criam acontecimentos. Também sabemos que a escolha que os media fazem entre os factos que ocorrem elevam esses factos à categoria de acontecimentos.
Há um filme, penso que se chama “The paper”, em que uma redacção discute o título a dar na primeira página. Há uns putos, suspeitos de cometerem um crime, e um dos jornalistas diz que se podia colocar a foto dos putos com o título “Apanhados”. Outro jornalista chama a atenção para o facto de não se ter a certeza de terem sido os putos. Ao que o primeiro responde: “Não faz mal, sujamo-los hoje, limpamo-los amanhã”
O problema é que as pessoas que compram hoje o jornal podem não comprá-lo amanhã, o problema é que mesmo que o comprem as pessoas tendem a acreditar na culpabilidade muito facilmente, mas dificilmente na inocência.

Há uns tempos atrás, ouvi no Clube de Jornalistas, uma jornalista, da velha guarda, dizer que antigamente os jornalistas escreviam o que sabiam, diziam “eu sei que…” e que hoje, os jornalistas dizem o que as personagens das histórias dizem, dizem “Fulano disse que…”.

O jornalismo hoje está cheio de pés de microfone, os jornais enchem-se de aspas. Penso que era Gaye Tuchman, que chamava a atenção para este fenómeno: os jornalistas passaram a usar as aspas, não como como prova do que sabem, mas como protecção. Podem meter no jornal as maiores barbaridades, desde que arranjem alguém que as diga e acham até que nem precisam de as confirmar, pois se lhes disserem alguma coisa, passam logo a retorquir “está entre aspas, não fui eu que disse!”, e é esta desresponsabilização dos jornalistas, que faz o jornalismozeco que temos hoje, o jornalismozeco do diz-que-disse.
Porque, sejamos claros, para gravar o que uma pessoa diz, gravar o que a oponente diz e transcrever no jornal não é preciso andar a estudar quatro ou cinco anos. Qualquer um faz. Aliás, qualquer gravador ou qualquer microfone faz.

Cada vez mais temos licenciados em jornalismo. Há não muitos anos, havia jornalistas com a 4ª classe, hoje têm licenciaturas e mestrados. Ao mesmo tempo que o estudo aumenta, a qualidade do jornalismo parece diminuir. E esta cambada não percebe que não tem o direito de destruir a carreira de uma pessoa só porque um anónimo qualquer se lembra de lançar um boato. Que nenhum jornalista se deu ao trabalho de confirmar.

Quem se deve estar a rir desta atitude patética dos jornalistas deve ser o tal anónimo. E até eu me ria, não fosse estarmos a falar de uma difamação execrável que o jornalismo de hoje empolou e contribuiu para manchar uma carreira profissional de uma pessoa.

4 Respostas a “jornalismozeco de trazer por casa”
  1. Eu fui um dos que julgou sumariamente o MST por causa desse caso e tenho de fazer um mea culpa. Talvez por abominar o plágio, talvez por sempre ter tido o MST como uma personagem controversa, que me provoca sentimentos divididos.

    O que acho que tem de ser dito sobre ele é que é um bom escritor, uma pessoa cujas opiniões sobre política mas não só coincidem em geral com as minhas e portanto uma pessoa que tenho gosto em ouvir. Com a excepção de quando fala sobre futebol e muito em particular sobre o Benfica. Nesse caso dá asco, mete nojo. E estas palavras não são exageradas, a sua atitude neste particular é um incitamento ao ódio, e tudo por causa de algo secundário como o futebol.

    E este facto só não o faz cair da alta consideração em que o tenho porque também eu sei o quanto é difícil falar de algo que nos apaixona sem cometer 1001 erros e excessos.

  2. Paula diz:

    Eu não ouço muito o MST falar de futebol (talvez porque quando ele começa eu acabo :D ), mas das poucas vezes que o ouvi, achei um exagero, mas tens razão, as pessoas que gostam muito de algo tendem a transformar-se e a dizer coisas de forma que nunca julgávamos ser possível.

  3. Tadinho do MST. Anda o senhor tão atarefado na sua vida a dizer barbaridades que nos fazem arrepiar os cabelos e um dia acontece uma coisa destas…. Se ao menos o Povo Português tivesse um ditado que nos fosse previamente ajudar…. Estou a pensar em algo profundo e ao mesmo tempo simple… “Quem semeia ventos, colhe tempestades” Hmmm fica bem não fica?

    Piadas á parte é triste toda a história. Não por ser com o Sr. MST mas porque é com tanta gente. É tão facil nos dias de hoje dizer: “Fulano fez tal coisa!” E sem provas queimar uma pessoa….. Mas isto nao tem nada que ver com o que eu sou pois não? Coisas destas não acontecem a nós pessoas anónimas…….

    Ou então não!

  4. Por falar nisso, obrigado Gustavo por teres sido o primeiro a quem eu “ouvi” falar de FUD :) Entrou directamente para o meu TOP de siglas, a par de membros tão famosos como o BTW ou o IMHO ou o AFAIK…

  5.  
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