Vou aproveitar a deixa do último post da Paula e contar uma das histórias que me sucedeu no Interrail.
O “Motorcycle Diaries”, do Che Guevara, foi um dos 3 livros que levei comigo para ler durante os 30 dias. Acabei-o, mais o “Biliões e biliões”, o último livro escrito pelo Carl Sagan antes de morrer.

Na viagem entre Sófia na Bulgária e Bucareste na Roménia, vinha num compartimento para 6 pessoas, inicialmente cheio. Uma das pessoas saiu pouco depois da partida, pelo que ficámos 5. Eu, uma jovem búlgara de 19 anos, o pai dela, e mais duas senhoras, uma bulgara e outra romena. Falavam inglês a jovem e a senhora romena, pelo que foram aquelas com que falei.

A paisagem durante aquela viagem foi verdadeiramente fabulosa. Tal como o Kusturica mostra. As pessoas ao lado da linha do comboio, a Natureza… A fronteira atravessa-se através de uma ponte que passa sobre o Danúbio, rio que me acompanhou durante bastante tempo, depois em Budapeste e também em Viena. Desagua não muito longe dali, no Mar Negro, na Roménia. Partilhei belos momentos à janela com a jovem e o pai, só ali a observar a paisagem e a respirar o ar das montanhas.

A jovem ia a Bucareste para obter um visto para o Canadá. Vai estudar Economia para Ottawa e não existe embaixada do Canadá na Bulgária. 12 horas de viagem, incluindo a noite, por questões burocráticas.
A romena, senhora para os seus 50 anos, embora aparentasse menos devido à maquiagem e também ao estilo da roupa, era casada com um búlgaro e vivia em Sófia. Ia a Bucareste renovar o passaporte. 12 horas de viagem, incluindo a noite, por questões burocráticas.

O livro tem uma capa folclórica, predominantemente vermelha, com uns bocados amarelos e algum preto. Em letras brancas grandes tem escrito “Che Guevara”. No canto superior esquerdo, a célebre fotografia do Che com a boina, que encontrei em dezenas e dezenas de sítios por toda a Europa. Impressionante.
Enquanto saí por algum tempo do compartimento, deixei o livro pousado na mesa comum, à vista. Quando voltei e me sentei, surgiu do nada a pergunta da senhora romena: “What is your religion?”.

Imediatamente percebi do que se tratava. “Sou ateu” disse. “What do you think about communism?”. Eu não queria entrar em discussões acesas, até porque percebi imediatamente pelo tom e tipo das perguntas qual era a posição dela. Disse algo como “Acho que sou muito novo para ter qualquer opinião válida sobre o assunto. Mas actualmente considero o Comunismo uma ideia boa na teoria. Na prática não funciona e parece-me portanto apenas algo de romântico.” Retaliei: “You don’t like communism?”. Ela disse “Of course not. With communism there is no freedom.” Já há muito que tinha percebido qual era a posição dela sobre o Comunismo. A minha pergunta na verdade era apenas uma tentativa de encontrar explicações substanciadas para a sua posição. Obviamente, a resposta foi insatisfatória. Esperava ouvir algo de interessante sobre a era Ceausescu, mas não ouvi.

Voltando tematicamente ao início da conversa e tentando manifestar que não me apetecia discutir muito, comentei que acho que é importante não ser fundamentalista e manter sempre uma mente aberta. O fundamentalista ateu pode ser tão mau como o fundamentalista católico ou o fundamentalista muçulmano, pelo que o importante é não ser fundamentalista. Precisamente por isso, disse-lhe que achava mais interessante a religião ortodoxa do que a católica. Apenas pelo pouco que me tinha sido dado a ver na Grécia e na Bulgária, até àquela altura, os ortodoxos pareciam-me bem mais modestos que os católicos.
Ainda assim, ela apressou-se a não concordar, simultaneamente revelando a sua religião, dizendo que para ela a religião católica era superior à ortodoxa, precisamente por ser mais “radical” e ter ideias bem definidas. Perguntou-me se eu já tinha lido o último livro do Papa João Paulo II, de que ela era grande fã. Impulsivamente quis-lhe dizer que só lia literatura de jeito, mas controlei-me. Na verdade, até acredito que o anterior Papa seja um bom escritor e até tenha ideias interessantes. Não me posso pronunciar.

O “Motorcycle Diaries” não é um livro sobre Comunismo. Nem sequer é um livro comunista. A pessoa que o escreveu, com 23 anos, nem sequer se pode dizer que era um comunista. É surpreendente para mim pensar que a mesma pessoa que escreveu aquelas linhas se tornou nO Che Guevara, o símbolo mundial da Revolução, ele sim um comunista. É um livro engraçado, nada extraordinário, que relata episódios caricatos de quem viaja e passa por aventuras. Mais nada.

Um jovem Licenciado, como eu, de 23 anos, como eu, faz uma viagem através de um continente inteiro, como eu. Torna-se comunista e uma das figuras mais marcantes do seu século. Acabada a viagem, continua a ser-me difícil compreender porque é que uma expedição como aquela que é relatada teve um papel tão importante no seu desenvolvimento, como ele e os críticos consideram.
Não haja, no entanto, dúvidas. Enquanto viajante, o capitalismo revelou-se um inimigo feroz. Tudo se compra e tudo se vende, ninguém dá nada a ninguém. Hoje, é praticamente impossível encontrar uma casa-de-banho pública na Europa onde não se tenha de pagar para entrar. Não se pode deixar bagagem guardada sem pagar, não se pode acampar sem pagar, praticamente não se pode dormir sem pagar. Comer, beber, paga-se. É-se roubado, paga-se. Ao pagarmos com cartões de crédito, pagamos também ao banco. Ao levantarmos dinheiro em países remotos, pagamos ao banco. Ao trocarmos entre diferentes moedas, pagamos comissões. Por dormir em certas cidades, nem que seja uma noite, têm de se pagar impostos locais associados à nossa simples permanência lá. Para andarmos nos transportes públicos pagamos e bem. Para visitar museus, pagamos. Para ter um guia na visita ao museu, pagamos. Para ter uma visita guiada à cidade, pagamos. Para subir a sítios altos, que nos permitam ter acesso a vistas priveligiadas das cidades, pagamos. Em alguns sítios paga-se pelo banho, para acender o fogão e até para lavar a loiça. Paga-se para subir 300 degraus, para estacionar o carro ou a bicicleta. Nas estações de comboio e aeroportos até já se paga pelos carrinhos de transporte da bagagem.

O Capitalismo parece viver assim, e eu não gosto nem um bocadinho desta situação. Mas será o Comunismo uma alternativa?

Uma Resposta a “Sófia -> Bucareste”
  1. Ines diz:

    ola, precisava de uma ajuda :-) estou a pensar em ir á Bulgária e não encontro que tipos de transportes tenho, sem ser de avião :-) (pavor a aviões)
    se souber, tendo em conta que ja viajou por lá ficava-le muito grata!!
    obrigada

  2.  
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