“Aquilo a que estamos agarrados agarra-nos também”
Posted by: Paula Simões in Geral, Literatura“A verdade é que as coisas que temos nos têm, também elas, a nós, pelo seu lado: o que possuímos - possuí-nos. Eu explico. Um dia, um sábio budista dizia ao seu discípulo isto mesmo que eu te estou a dizer e o discípulo olhava para ele com uma expressão estranha na cara (”este velho está chalado”), como aquela que talvez ponhas ao ler esta página. Então, o sábio perguntou ao discípulo: “O que é que te agrada mais nestes aposentos?” O aluno atrevido apontou para uma esplêndida taça de ouro e de marfim que devia valer uma pipa de massa. “Bem, toma-a”, disse o sábio, e o rapaz, sem esperar que lho dissessem duas vezes, agarrou firmemente a jóia com a mão direita. “Não te dê para largá-la, hein?”, observou o mestre com certa ironia; e depois acrescentou: “E não há nenhuma outra coisa que te agrade também?” O discípulo reconheceu que a bolsa cheia de moedas que estava em cima da mesa também não lhe repugnava. “Pois então, anda, fica com ela!”, incitou o outro. E o rapaz agarrou fervorosamente a bolsa com a mão esquerda. “E agora que mais?”, perguntou o discípulo ao mestre com certo nervosismo. O sábi retorquiu: !Agora, coça-te!” Não havia maneira, claro está. E olha que uma pessoa pode precisar a valer de coçar-se quando lhe arde alguma parte do corpo… ou da alma! Com as mãos ocupadas, não podemos coçar-nos à vontade, nem fazer muitos outros gestos. Aquilo a que estamos agarrados agarra-nos também, a seu modo…”
Fernando Savater in Ética para um Jovem. Dom Quixote, 13ÃÂê edição, pp 72 e 73

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