Estou já de volta a Roma e no final do primeiro dia de trabalho pós-Interrail. Cheguei ontem depois das últimas 18 horas de comboio (Paris-Zurique, Zurique-Milão e Milão-Roma).
Escrevi, aqui, no dia 30 de Julho, mais ou menos a meio da viagem, desde Munique, na Alemanha.
Isto é um seguimento:
Em Munique estava a chover, e muito. Acampei durante a noite num sítio muito bonito ao lado do qual existia um canal onde periodicamente passavam grandes jangadas de madeira com uma banda a bordo, junto com gente a beber cerveja e a cantar. Belo espectáculo. Não gostei especialmente de Munique embora o tempo não tenha ajudado e esta tenha sido a única cidade para a qual não arranjei um mapa (ou alguém que me orientasse). Sou capaz de voltar lá, talvez em Outubro do ano que vem, claro está.
De Munique fui para Praga, na República Checa, talvez o momento mais importante do meu Interrail. Quase toda a gente fala muito bem de Praga e as expectativas eram elevadas. Praga acabou por ser importante, mas por razões inesperadas. Antes de mais, a cidade é muito linda, parece saída de um conto de fadas e não saí de lá completamente decepcionado. Simplesmente, como dizem os Ingleses, “Beauty is in the eye of the beholder” e se isto significa que a beleza de Praga depende em grande parte de quem vê, também significa que as experiências por que passamos num determinado sítio, ficam indelevelmente ligadas à nossa opinião sobre esse sítio.
E em Praga, ao fim do meu primeiro dia lá, 1 de Agosto, roubaram-me uma mochila pequena, que tinha comprado 3 ou 4 dias antes, em Budapeste, e que estava a usar nas minhas visitas pelas várias cidades. A mochila não tinha nada de muito importante para mim, excepto uma coisa: o meu bilhete de Interrail. Para quem anda a fazer um Interrail, talvez seja um pouco chato ficar sem a Anna Karenina, do Tolstoy, sem o diário onde se escrevem alguns pensamentos, sem o mapa da Europa que um amigo nos ofereceu nos anos, sem aquela camisola azul já velhinha, de que gostamos muito mas que, se estivéssemos ainda a viver em casa dos pais, a mãe já tinha deixado fora. Era velha sim, mas aquecia tão bem como uma nova. Mas dizia eu, é chato para quem está a fazer um Interrail ficar sem estas coisas, mas ultrapassa a fronteira do chato ficar sem o bilhete de Interrail.
O bilhete de Interrail tinha-me custado 385 Euros, era pessoal e intransmissível, mas facilmente deixou de pertencer à minha pessoa e foi transmitido para outrem. Teoricamente, mais ninguém o poderia usar, embora na prática a situação seja a oposta - não houve uma única viagem (e fiz mais de 20) em que me pedissem a identificação. De qualquer forma, eu tinha um problema, e passados os primeiros momentos em que tentei activamente recuperar a mochila, perseguindo indivíduos suspeitos, vasculhando caixotes do lixo e aguardando um milagre, decidi finalmente chamar a polícia, que eu sabia não poder fazer nada, o que aliás, me foi prontamente assinalado pelo McManager da conhecida cadeia de restaurantes onde o ilícito ocorreu. Este senhor é uma das pessoas que figuram agora no meu álbum daqueles que tentaram impedir-me de cumprir a minha viagem, pela forma extremamente despreocupada e desmotivante como enfrentou o roubo de algo valioso a um dos seus clientes. Pagaria para ver a reacção dele se um dos clientes saísse sem lhe pagar os cerca de 5 Euros que ali custa uma refeição. Ou se alguém lhe partisse um vidro e fugisse. Qualquer uma das duas possibilidades me passou pela cabeça, como acto de pura vingança. Afinal, não me parece que a polícia pudesse fazer alguma coisa.
Já depois da meia-noite, duas horas depois do roubo, fui finalmente à esquadra, apenas porque gosto de coleccionar declarações da polícia a dizer que nos roubaram coisas. Ainda não tinha nenhuma em Checo. Juntei-a imediatamente à que tenho em Italiano, de outro roubo de que fui alvo e do qual recuperei os items em causa, graças à minha preocupação e não a algo que a polícia tivesse feito nesse sentido.
Acontece, porém, que esta declaração não foi obtida na altura, mas sim no dia seguinte, pois, imagine-se, àquela hora, as duas agentes na esquadra disseram-me que estavam demasiado ocupadas, assim mesmo. Ao sair, tendo já decidido que por aquele dia mais valia voltar ao Parque de Campismo, dormir e pensar no assunto no dia a seguir, bati violentamente com a porta, que era grande e de madeira. Fez um grande barulho, mas ninguém veio atrás de mim. Talvez estivessem mesmo ocupados.
Como devem imaginar, esta não foi uma altura particularmente alegre da viagem. Passei muito tempo a pensar no que deveria fazer, se deveria voltar para Itália ou não, alterar o percurso, ir pedir para a porta da loja, contando o sucedido e esperar que alguém tivesse pena. Depois de penar um bocado pelos cantos (da tenda), lá decidi que iria continuar a viagem exactamente como planeado, comprando outro bilhete de Interrail, ou os vários bilhetes de que necessitava separadamente. Depois de alguma pesquisa, e tendo em conta que ainda tinha de atravessar praticamente todas as zonas que pretendia (4 em 5), acabei por comprar outro bilhete de Interrail e, mais uma vez, global. No meio de toda a situação, ainda acabei por ficar contente por ter pago apenas 308 Euros (320 de acordo com o que está na minha conta bancária - já agora, eles cobram 2.25 Euros por cada levantamento de dinheiro no estrangeiro…). Acontece que a República Checa e Praga são baratas. O Interrail tem em conta o “desenvolvimento” do país no estabelecimento das tarifas e eu acabei por beneficiar disso.
Depois, bem mais animado e determinadíssimo a deitar o episódio para trás das costas, pensei que recriar as condições pré-roubo me ajudasse a esquecer e então tratei de ir a uma livraria que vendia livros estrangeiros e encontrei, por 6 ou 7 Euros, uma cópia da Anna Karenina, igualmente em Inglês, e igualmente um Penguin Classic. E assim pude continuar a contar com a companhia do Levin, do Vronsky e do Stiva nesta minha viagem solitária. Curiosamente, o livro que me foi roubado até nem era meu (e já não é a primeira vez que fico sem um livro que não é meu. Por isso, tenham cuidado com o que me emprestam). Pertencia ao Book Club que existe aqui no trabalho, de onde podemos levar livros emprestados, fazer pedidos, etc.. Assim, neste primeiro dia de trabalho, ao mesmo tempo que descobri que o clube adquiriu, entre muitos outros, as versões em Inglês de “The Razor’s Edge” do W.Somerset Maugham, “Sputnik Sweetheart” do Haruki Murakami, “The Stranger” do Albert Camus e “Memoirs of Hadrian” da Marguerite Yourcenar, combinei oferecer a cópia do livro que comprei em Praga ao Book Club.
De Praga ficaram recordações de uma cidade linda, a merecer nova visita (definitivamente, noutra época do ano). Mas também, talvez pelo facto de ser barata, de uma cidade cheiíssima de turistas e de ladrões. De facto, em poucas conversas descobri que só em Praga roubaram a carteira e os cartões de crédito a um brasileiro que conheci também em Praga, um Traveller’s Cheque a um irlandês que conheci em Cracóvia, na Polónia, uma máquina fotográfica a uma americana cujos pais conheci em Berlim, na Alemanha e outra máquina fotográfica + telemóvel a uma outra pessoa cujos amigos conheci também em Cracóvia. Todos os caminhos do roubo iam dar a Praga…
E a seguir fui para Cracóvia e para a Polónia…

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mas que grande viagem. Por acaso sempre tive a ideia de que Praga era uma cidade muito segura, não sei porquê. Enfim, aguardam-se as novas entradas no diário de viagem.
Ui…grande viagem…o meu próximo destino (e já tinha tudo marcado antes de ler) é mesmo Praga, espero não ser assaltada