Vieste de tão longe para tomar café. Vens sempre de tão longe só para tomar café.
Juntou-se muita gente ao redor da mesa.
Esperavam que lhes contasses a vida lá longe, a vida de outras gentes, como se as gentes não fossem iguais em toda a parte. Talvez quisessem que as gentes não fossem iguais porquanto isso lhes daria, também a eles, o estatuto de diferentes.
E foste despejando essa vida. As rotinas, os horários, o trabalho, o arranjar casa, e os filmes que se viam, e os livros de que se falava, e os transportes públicos e o tempo, a metereologia bem entendido, que eram essas as rotinas que aquela gente esperava sofregamente ouvir.
E eu olhava-te a segurares o copo da cerveja com a mão que agarrava também o cigarro e lia, nessas palavras rotineiras, as saudades que não admitias que tinhas.
Eu observava a cena no conjunto, e sentia este travo da existência de duas conversas, uma por cima da outra, como se planassem em diferentes camadas. A de cima, inofensiva e previsível. A debaixo, pouco segura e pronta a explodir.
Já de madrugada, não me deixaste ir embora sem me enlaçares longamente e pedires baixinho ao meu ouvido: “fica comigo, vem comigo”.
E eu fingi, por um momento, que não te ouvi, para, egoisticamente, sentir durante mais algum tempo o teu abraço, quente e seguro, até te dizer “não posso”.
E percebo agora que te menti, sem saber que mentia. Que podemos sempre. Que somos nós que escolhemos. Que podemos não gostar de nenhum dos caminhos, mas eles existem sempre e estão lá para serem escolhidos ou rejeitados. Por nós.

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