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A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.” - Bernardo Soares, ajudante de Guarda-Livros na cidade de Lisboa

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Sabes que também eu sou um guarda-livros, Paula (na verdade, agora são chamados de contabilistas, mas é a mesma coisa)? Infelizmente, as semelhanças (com Bernardo Soares e com o próprio Fernando Pessoa) acabam por aqui. Não sou poeta nem genial, não tenho bigode, não vivo nenhum amor platónico (apesar de ter uma grande amiga chamada Ofélia, de quem gosto muito), não sou anti-comunista (bem pelo contrário!), não bebo café na Brasileira e nunca escrevi para a Revista do Comércio do Porto. Ah, e tenho a ilusão (pelo menos!) de ser feliz!
Outra curiosidade: sabes que Bernardo Soares era o heterónimo (há quem lhe chame semi-heterónimo, enfim…) com o qual Fernando Pessoa (Ortónimo) mais se identificava. Ele próprio o afirmava, apesar da ideia romântica de o fazer sempre o eng. naval… eheheh, é mais fácil gostar de Álvaro de Campos, não é? Pois, mas parece que F. Pessoa se identificava mesmo era com Bernardo Soares. E repara no seguinte: no nome “BERNARDO”, transforma o “B” em “F”, e o “R” em “N”. Agora, no nome “SOARES”, transforma o “R” em “P” (é só tirar uma perninha!), e inverte o sentido das sílabas (passa o “SOA” para o fim, portanto), e verifica o resultado. Curioso, não é? E com Pessoa (o Fernando!), não dá para acreditar em coincidências.
Um guarda-livros! Associo à profissão, não sei se erradamente, aqueles armários de madeira com muitas gavetinhas
É bem verdade a alteração da designação na profissão e data de 58:
“Conselho Federal de Contabilidade – CFC
LEI N.º 3.384 – DE 28 DE ABRIL DE 1958
Dá nova denominação à profissão
de guarda-livros.
Artigo 1º - Os profissionais habilitados como guarda-livros, de
acordo com os decretos números 20.158, de 30 de junho de 1931, e 21.033, de 8 de
fevereiro de 1932, bem como os Técnicos em Contabilidade, diplomados em conformidade
com o disposto no Decreto-Lei n.º 6.141, de 28 de dezembro de 1943, modificado pelo
Decreto-lei n.º 8.191, de 20 de novembro de 1945, passam a integrar a categoria
profissional de Técnicos em Contabilidade, com as atribuições e prerrogativas atualmente
conferidas aos guarda-livros.
Art. 2º - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação,
revogadas as disposições em contrário.”
Penso que sim, que o Bernardo Soares era aquele com quem mais Pessoa (o Fernando!
) se identificava. Agora ando a descobrir também o Barão de Teive no livro “A Educação do Estóico”.
e gosto da passagem de irado: “vão para o diabo sem mim”, aborrecido: “ou deixem-me ir sozinho. Para que havemos de ir juntos?”, chateado: “Não me peguem no braço, não gosot que me peguem no braço. Quero ser sozinho, Ah! Que maçada quererem que eu seja de companhia!” até desaguar numa nostalgia calma quase no fim: “Oh, céu azul, o mesmo da minha infância, eterna verdade vazia e perfeita!” e depois, finalmente, um desalento doce “deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo. E enquanto tarda o abismo e o silêncio quero estar sozinho”
finalmente.
Eu gosto muito do Álvaro de Campos. Principalmente do Lisbon Revisited, 1923. “Não, não quero nada. Já disse que não quero nada (…)” sei-o quase de cor
Ou, pelo menos, é assim que o “ouço”
Gosto de sentir estas variantes na escrita e na voz, como no FMI. Segue o email