“Aquilo a que estamos agarrados agarra-nos também”
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“A verdade é que as coisas que temos nos têm, também elas, a nós, pelo seu lado: o que possuímos - possuí-nos. Eu explico. Um dia, um sábio budista dizia ao seu discípulo isto mesmo que eu te estou a dizer e o discípulo olhava para ele com uma expressão estranha na cara (”este velho está chalado”), como aquela que talvez ponhas ao ler esta página. Então, o sábio perguntou ao discípulo: “O que é que te agrada mais nestes aposentos?” O aluno atrevido apontou para uma esplêndida taça de ouro e de marfim que devia valer uma pipa de massa. “Bem, toma-a”, disse o sábio, e o rapaz, sem esperar que lho dissessem duas vezes, agarrou firmemente a jóia com a mão direita. “Não te dê para largá-la, hein?”, observou o mestre com certa ironia; e depois acrescentou: “E não há nenhuma outra coisa que te agrade também?” O discípulo reconheceu que a bolsa cheia de moedas que estava em cima da mesa também não lhe repugnava. “Pois então, anda, fica com ela!”, incitou o outro. E o rapaz agarrou fervorosamente a bolsa com a mão esquerda. “E agora que mais?”, perguntou o discípulo ao mestre com certo nervosismo. O sábi retorquiu: !Agora, coça-te!” Não havia maneira, claro está. E olha que uma pessoa pode precisar a valer de coçar-se quando lhe arde alguma parte do corpo… ou da alma! Com as mãos ocupadas, não podemos coçar-nos à vontade, nem fazer muitos outros gestos. Aquilo a que estamos agarrados agarra-nos também, a seu modo…”
Fernando Savater in Ética para um Jovem. Dom Quixote, 13ÃÂê edição, pp 72 e 73
carta a um amigo
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“I would say I’m sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I’ve said too much
Been too unkind
I try to laugh about it
Cover it all up with lies”
há pouco tempo, perguntaram-me o sentido desta frase que usei, antes de perceber, mais uma vez, como ela é verdadeira:
“tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé” [Le Petit Prince]
suponho que ela significa que choro quando tu choras
“I try and
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
’cause boys don’t cry
Boys don’t cry”
disseste-me que tiveste um pensamento foleiro e que não o ías dizer para não “estragares” a imagem que tenho de ti. e eu disse-te que isso não era possível. e tu, esperto como és, anotaste a frase-feita e contra-argumentaste que a imagem que eu tenho de ti, foste tu que a construíste. e eu ripostei que, por esta altura, já não tinhas o poder de a alterar. mas não sei porquê. apenas sinto que é assim.
“I would break down at your feet
And beg forgiveness
Plead with you
But I know that
It’s too late
And now there’s nothing I can do”
queria saber dar-te a solução. não. queria saber mostrar-te os caminhos, para que tu pudesses decidir o que fazer.
“So I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try to
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
’cause boys don’t cry”
mas ultimamente a minha visão anda tão turva que nem os meus próprios caminhos eu consigo ver. por isso, vou colocando aqui excertos de uma letra de uma música, já antiga, que fala de muitas coisas, mas também de uma luta. uma luta que ando a travar comigo própria e que sei, porque me respondeste [talvez tenhas respondido mais a ti do que a mim] sem eu te perguntar nada, que tu também andas a travar essa luta insana.
“I would tell you
That I loved you
If I thought that you would stay
But I know that it’s no use
That you’ve already
Gone away”
é porque essa capacidade lúcida se me esvaiu que não sei como te acalmar ou o que te dizer para te descansar. há um livro que diz que o segredo é fechar o olhos e ver com o coração, mas eu não sei dizer.
“Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted
I thought that you needed me more”
às vezes, não dizemos às pessoas que elas são importantes para nós porque achamos que isso está implícito. muitas vezes só o fazemos em momentos de crise e normalmente de forma individual e pouco comprometedora. é por isso que decidi dizer-te, assim publicamente, que desempenhas um papel importante e fundamental na minha vida.
“Now I would do most anything
To get you back by my side
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
’cause boys don’t cry
Boys don’t cry
Boys don’t cry”
isto tudo para dizer que estou aqui e estarei sempre, como a imagem que não pode mudar. que também eu me sinto a balançar numa corda, como sinto que tu te sentes, mas que se quiseres rir ou chorar, poderemos sempre fazê-lo juntos - pelo menos quem nos vir, não vai pensar que somos loucos, como faria se ríssemos ou chorássemos sózinhos
também te queria dizer que, da mesma forma que tenho a certeza da imagem que não pode mudar, vais discernir o caminho. e estando a falar de ti, tenho ainda a certeza que se não for o mais “correcto”, será certamente o melhor.
um abraço e uma festinha,
Paula
P.S. - será agora a minha vez de te dizer a ti “tu devias era levar porrada”? ![]()
Sófia -> Bucareste
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Vou aproveitar a deixa do último post da Paula e contar uma das histórias que me sucedeu no Interrail.
O “Motorcycle Diaries”, do Che Guevara, foi um dos 3 livros que levei comigo para ler durante os 30 dias. Acabei-o, mais o “Biliões e biliões”, o último livro escrito pelo Carl Sagan antes de morrer.
Na viagem entre Sófia na Bulgária e Bucareste na Roménia, vinha num compartimento para 6 pessoas, inicialmente cheio. Uma das pessoas saiu pouco depois da partida, pelo que ficámos 5. Eu, uma jovem búlgara de 19 anos, o pai dela, e mais duas senhoras, uma bulgara e outra romena. Falavam inglês a jovem e a senhora romena, pelo que foram aquelas com que falei.
A paisagem durante aquela viagem foi verdadeiramente fabulosa. Tal como o Kusturica mostra. As pessoas ao lado da linha do comboio, a Natureza… A fronteira atravessa-se através de uma ponte que passa sobre o Danúbio, rio que me acompanhou durante bastante tempo, depois em Budapeste e também em Viena. Desagua não muito longe dali, no Mar Negro, na Roménia. Partilhei belos momentos à janela com a jovem e o pai, só ali a observar a paisagem e a respirar o ar das montanhas.
A jovem ia a Bucareste para obter um visto para o Canadá. Vai estudar Economia para Ottawa e não existe embaixada do Canadá na Bulgária. 12 horas de viagem, incluindo a noite, por questões burocráticas.
A romena, senhora para os seus 50 anos, embora aparentasse menos devido à maquiagem e também ao estilo da roupa, era casada com um búlgaro e vivia em Sófia. Ia a Bucareste renovar o passaporte. 12 horas de viagem, incluindo a noite, por questões burocráticas.
O livro tem uma capa folclórica, predominantemente vermelha, com uns bocados amarelos e algum preto. Em letras brancas grandes tem escrito “Che Guevara”. No canto superior esquerdo, a célebre fotografia do Che com a boina, que encontrei em dezenas e dezenas de sítios por toda a Europa. Impressionante.
Enquanto saí por algum tempo do compartimento, deixei o livro pousado na mesa comum, à vista. Quando voltei e me sentei, surgiu do nada a pergunta da senhora romena: “What is your religion?”.
Imediatamente percebi do que se tratava. “Sou ateu” disse. “What do you think about communism?”. Eu não queria entrar em discussões acesas, até porque percebi imediatamente pelo tom e tipo das perguntas qual era a posição dela. Disse algo como “Acho que sou muito novo para ter qualquer opinião válida sobre o assunto. Mas actualmente considero o Comunismo uma ideia boa na teoria. Na prática não funciona e parece-me portanto apenas algo de romÃÂântico.” Retaliei: “You don’t like communism?”. Ela disse “Of course not. With communism there is no freedom.” Já há muito que tinha percebido qual era a posição dela sobre o Comunismo. A minha pergunta na verdade era apenas uma tentativa de encontrar explicações substanciadas para a sua posição. Obviamente, a resposta foi insatisfatória. Esperava ouvir algo de interessante sobre a era Ceausescu, mas não ouvi.
Voltando tematicamente ao início da conversa e tentando manifestar que não me apetecia discutir muito, comentei que acho que é importante não ser fundamentalista e manter sempre uma mente aberta. O fundamentalista ateu pode ser tão mau como o fundamentalista católico ou o fundamentalista muçulmano, pelo que o importante é não ser fundamentalista. Precisamente por isso, disse-lhe que achava mais interessante a religião ortodoxa do que a católica. Apenas pelo pouco que me tinha sido dado a ver na Grécia e na Bulgária, até àquela altura, os ortodoxos pareciam-me bem mais modestos que os católicos.
Ainda assim, ela apressou-se a não concordar, simultaneamente revelando a sua religião, dizendo que para ela a religião católica era superior à ortodoxa, precisamente por ser mais “radical” e ter ideias bem definidas. Perguntou-me se eu já tinha lido o último livro do Papa João Paulo II, de que ela era grande fã. Impulsivamente quis-lhe dizer que só lia literatura de jeito, mas controlei-me. Na verdade, até acredito que o anterior Papa seja um bom escritor e até tenha ideias interessantes. Não me posso pronunciar.
O “Motorcycle Diaries” não é um livro sobre Comunismo. Nem sequer é um livro comunista. A pessoa que o escreveu, com 23 anos, nem sequer se pode dizer que era um comunista. É surpreendente para mim pensar que a mesma pessoa que escreveu aquelas linhas se tornou nO Che Guevara, o símbolo mundial da Revolução, ele sim um comunista. É um livro engraçado, nada extraordinário, que relata episódios caricatos de quem viaja e passa por aventuras. Mais nada.
Um jovem Licenciado, como eu, de 23 anos, como eu, faz uma viagem através de um continente inteiro, como eu. Torna-se comunista e uma das figuras mais marcantes do seu século. Acabada a viagem, continua a ser-me difícil compreender porque é que uma expedição como aquela que é relatada teve um papel tão importante no seu desenvolvimento, como ele e os críticos consideram.
Não haja, no entanto, dúvidas. Enquanto viajante, o capitalismo revelou-se um inimigo feroz. Tudo se compra e tudo se vende, ninguém dá nada a ninguém. Hoje, é praticamente impossível encontrar uma casa-de-banho pública na Europa onde não se tenha de pagar para entrar. Não se pode deixar bagagem guardada sem pagar, não se pode acampar sem pagar, praticamente não se pode dormir sem pagar. Comer, beber, paga-se. É-se roubado, paga-se. Ao pagarmos com cartões de crédito, pagamos também ao banco. Ao levantarmos dinheiro em países remotos, pagamos ao banco. Ao trocarmos entre diferentes moedas, pagamos comissões. Por dormir em certas cidades, nem que seja uma noite, têm de se pagar impostos locais associados à nossa simples permanência lá. Para andarmos nos transportes públicos pagamos e bem. Para visitar museus, pagamos. Para ter um guia na visita ao museu, pagamos. Para ter uma visita guiada à cidade, pagamos. Para subir a sítios altos, que nos permitam ter acesso a vistas priveligiadas das cidades, pagamos. Em alguns sítios paga-se pelo banho, para acender o fogão e até para lavar a loiça. Paga-se para subir 300 degraus, para estacionar o carro ou a bicicleta. Nas estações de comboio e aeroportos até já se paga pelos carrinhos de transporte da bagagem.
O Capitalismo parece viver assim, e eu não gosto nem um bocadinho desta situação. Mas será o Comunismo uma alternativa?
“Let the world change you… and you can change the world” ou um Rocinante chamado Poderosa II
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Há viagens que nos mudam, outras nem por isso.
No meio dos dois actores, Alberto Granado ![]()
Pixies hoje, Cave amanhã
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“And this I know:
His teeth as white as snow
What a gas it was to see him
Walk her every day into a shady place
With her lips she said,
‘Hey, Paul, hey Paul, hey Paul
Let’s have a ball.’ (x3)
Gigantic, gigantic, gigantic
A big big love (x2)
Lovely legs, they’re a
What a big black mess
What a hunk of love
Walk her every day into a shady place
He’s dark, but I want him
‘Hey, Paul, hey Paul, hey Paul
Let’s have a ball.’ (x3)
Gigantic, gigantic, gigantic
A big big love (x4)
A big big love, a big big love (x4)”
—
“I live in a town called millhaven
And it’s small and it’s mean and it’s cold
But if you come around just as the sun goes down
You can watch the whole town turn to gold
It’s around about then that I used to go a-roaming
Singing la la la la la la la lie
All god’s children they all gotta die
My name is loretta but I prefer lottie
I’m closing in on my fifteenth year
And if you think you have seen a pair of eyes more green
Then you sure didn’t see them around here
My hair is yellow and I’m always a-combing
La la la la la la la lie
Mama often told me we all got to die
You must have heard about the curse of millhaven
How last christmas bill blake’s little boy didn’t come
Home
They found him next week in one mile creek
His head bashed in and his pockets full of stones
Well, just imagine all the wailing and moaning
La la la la la la la lie
Even little billy blake’s boy, he had to die
Then professor o’rye from millhaven high
Found nailed to his door his prize-winning terrier
Then next day the old fool brought little biko to school
And we all had to watch as he buried her
His eulogy to biko had all the tears a-flowing
La la la la la la la lie
Even god’s little creatures, they have to die
Our little town fell into a state of shock
A lot of people were saying things that made little sense
Then the next thing you know the head of handyman joe
Was found in the fountain of the mayor’s residence
Foul play can really get a small town going
La la la la la la la lie
Even god’s children all have to die
Then, in a cruel twist of fate, old mrs colgate
Was stabbed but the job was not complete
The last thing she said before the cops pronounced her
Dead
Was, my killer is loretta and she lives across the
Street!
Twenty cops burst through my door without even phoning
La la la la la la la lie
The young ones, the old ones, they all gotta die
Yes, it is i, lottie. the curse of millhaven
I’ve struck horror in the heart of this town
Like my eyes ain’t green and my hair ain’t yellow
It’s more like the other way around
I gotta pretty little mouth underneath all the foaming
La la la la la la la lie
Sooner or later we all gotta die
Since I was no bigger than a weavil they’ve been saying i
Was evil
That if bad was a boot that I’d fit it
That I’m a wicked young lady, but I’ve been trying hard
Lately
O f**k it! I’m a monster! I admit it!
It makes me so mad my blood really starts a-going
La la la la la la la lie
Mama always told me that we all gotta die
Yeah, I drowned the blakey kid, stabbed mrs. colgate, i
Admit
Did the handyman with his circular saw in his garden shed
But I never crucified little biko, that was two junior
High school psychos
Stinky bohoon and his friend with the pumpkin-sized head
I’ll sing to the lot, now you got me going
La la la la la la la lie
All god’s children have all gotta die
There were all the others, all our sisters and brothers
You assumed were accidents, best forgotten
Recall the children who broke through the ice on lake
Tahoo?
Everyone assumed the warning signs had
Followed them to the bottom
Well, they’re underneath the house where I do quite a bit
Of stowing
La la la la la la la lie
Even twenty little children, they had to die
And the fire of ‘91 that razed the bella vista slum
There was the biggest shit-fight this country’s ever seen
Insurance companies ruined, land lords getting sued
All cause of wee girl with a can of gasoline
Those flames really roared when the wind started blowing
La la la la la la la lie
Rich man, poor man, all got to die
Well I confessed to all these crimes and they put me on
Trial
I was laughing when they took me away
Off to the asylum in an old black mariah
It ain’t home, but you know, it’s f**king better than
Jail
It ain’t such bad old place to have a home in
La la la la la la la lie
All god’s children they all gotta die
Now I got shrinks that will not rest with their endless
Rorschach tests
I keep telling them they’re out to get me
They ask me if I feel remorse and I answer, why of
Course!
There is so much more I could have done if they’d let
Me!
So it’s rorschach and prozac and everything is groovy
Singing la la la la la la la lie
All god’s children they all have to die
La la la la la la la lie
I’m happy as a lark and everything is fine
Singing la la la la la la la lie
Yeah, everything is groovy and everything is fine
Singing la la la la la la la lie
All god’s children they gotta die”
Ser mãe deve ser obra
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Não tenho jeitinho nenhum para crianças. O que não seria grave, se elas não gostassem de mim. O problema é que quando me vêem vêm sempre ter comigo. [É, Susana, deve ser do ar maternal que dizes que eu tenho.]
Ontem foi o primeiro de 15 dias em que fico responsável por uma actividade com crianças, ainda que não de forma directa. Com a sorte que tenho as monitoras responsáveis chegaram mais tarde.
Agarrei no grupo de 9 ou 10 e levei-os para o ginásio, por fora sorria e dizia “vamos jogar a qualquer coisa”, por dentro, em pÃÂânico, gritava “o que vou eu fazer com esta gente pequenina?”
Mas as crianças são fantásticas. Uma disse logo: “vamos jogar ao UNO”, o meu cérebro começou rapidamente a percorrer a listagem de jogos infantis: “uno, uno, uno…” nada… que raio seria o uno?
Cartas. É um jogo de cartas. Um pouco afastada do grupo uma pequenina envergonhada, a Daniela, a olhar-nos pelo canto do olho. Bem, não vale a pena enganá-los. Disse-lhes: “mas olhem que eu não sei jogar ao uno, vão ter de me ensinar”. Virei-me para a Daniela e perguntei “tu sabes jogar ao uno?”, abanou a cabeça, que não, não sabia. “Então vamos aprender as duas que eu também não sei”. Mais tarde perguntou-me: “Ficas hoje connosco?”
Enquanto jogávamos numa mesa, eu ía deitando um olho
- aos putos a jogar com uma bola de futebol ao fundo do ginásio e esperar que nada acontecesse aos vidros,
- aos pequeninos que teimavam em encavalitar-se nas barras paralelas,
- à discussão entre outros dois por causa da batalha naval,
- à bola de basquet que teimava em passar demasiado perto das cabecinhas,
- às cartas que tinha de jogar.
Hoje, os pequeninos foram com as monitoras para a praia. (uff!
)
Quando cheguei, já estava metade do grupo e todas monitoras, e a primeira coisa que senti foi a Daniela a agarrar-se-me às pernas num abraço terno.
Os próximos dias vão ser difíceis. Afastem-se, que vai ser duro controlar o meu relógio biológico.
saudade
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saudade de ti
e de mim
mas saudade de nós
de um tempo que não foi o teu
nem o meu
mas o nosso
saudade do que não existe
em ti
nem em mim
mas em nós
saudade
It does not mean anything
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“Le Surréalisme repose sur la croyance à la réalité supérieure de certaines formes d’association, négligées jusqu’à lui, à la toute puissance du rêve, au jeu désintéressé de la pensée.”
André Breton
“My painting is visible images which conceal nothing; they evoke mystery and, indeed, when one sees one of my pictures, one asks oneself this simple question ‘What does that mean’? It does not mean anything, because mystery means nothing either, it is unknowable.”
René Magritte
Interrail: Praga
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Estou já de volta a Roma e no final do primeiro dia de trabalho pós-Interrail. Cheguei ontem depois das últimas 18 horas de comboio (Paris-Zurique, Zurique-Milão e Milão-Roma).
Escrevi, aqui, no dia 30 de Julho, mais ou menos a meio da viagem, desde Munique, na Alemanha.
Isto é um seguimento:
Em Munique estava a chover, e muito. Acampei durante a noite num sítio muito bonito ao lado do qual existia um canal onde periodicamente passavam grandes jangadas de madeira com uma banda a bordo, junto com gente a beber cerveja e a cantar. Belo espectáculo. Não gostei especialmente de Munique embora o tempo não tenha ajudado e esta tenha sido a única cidade para a qual não arranjei um mapa (ou alguém que me orientasse). Sou capaz de voltar lá, talvez em Outubro do ano que vem, claro está.
De Munique fui para Praga, na República Checa, talvez o momento mais importante do meu Interrail. Quase toda a gente fala muito bem de Praga e as expectativas eram elevadas. Praga acabou por ser importante, mas por razões inesperadas. Antes de mais, a cidade é muito linda, parece saída de um conto de fadas e não saí de lá completamente decepcionado. Simplesmente, como dizem os Ingleses, “Beauty is in the eye of the beholder” e se isto significa que a beleza de Praga depende em grande parte de quem vê, também significa que as experiências por que passamos num determinado sítio, ficam indelevelmente ligadas à nossa opinião sobre esse sítio.
E em Praga, ao fim do meu primeiro dia lá, 1 de Agosto, roubaram-me uma mochila pequena, que tinha comprado 3 ou 4 dias antes, em Budapeste, e que estava a usar nas minhas visitas pelas várias cidades. A mochila não tinha nada de muito importante para mim, excepto uma coisa: o meu bilhete de Interrail. Para quem anda a fazer um Interrail, talvez seja um pouco chato ficar sem a Anna Karenina, do Tolstoy, sem o diário onde se escrevem alguns pensamentos, sem o mapa da Europa que um amigo nos ofereceu nos anos, sem aquela camisola azul já velhinha, de que gostamos muito mas que, se estivéssemos ainda a viver em casa dos pais, a mãe já tinha deixado fora. Era velha sim, mas aquecia tão bem como uma nova. Mas dizia eu, é chato para quem está a fazer um Interrail ficar sem estas coisas, mas ultrapassa a fronteira do chato ficar sem o bilhete de Interrail.
O bilhete de Interrail tinha-me custado 385 Euros, era pessoal e intransmissível, mas facilmente deixou de pertencer à minha pessoa e foi transmitido para outrem. Teoricamente, mais ninguém o poderia usar, embora na prática a situação seja a oposta - não houve uma única viagem (e fiz mais de 20) em que me pedissem a identificação. De qualquer forma, eu tinha um problema, e passados os primeiros momentos em que tentei activamente recuperar a mochila, perseguindo indivíduos suspeitos, vasculhando caixotes do lixo e aguardando um milagre, decidi finalmente chamar a polícia, que eu sabia não poder fazer nada, o que aliás, me foi prontamente assinalado pelo McManager da conhecida cadeia de restaurantes onde o ilícito ocorreu. Este senhor é uma das pessoas que figuram agora no meu álbum daqueles que tentaram impedir-me de cumprir a minha viagem, pela forma extremamente despreocupada e desmotivante como enfrentou o roubo de algo valioso a um dos seus clientes. Pagaria para ver a reacção dele se um dos clientes saísse sem lhe pagar os cerca de 5 Euros que ali custa uma refeição. Ou se alguém lhe partisse um vidro e fugisse. Qualquer uma das duas possibilidades me passou pela cabeça, como acto de pura vingança. Afinal, não me parece que a polícia pudesse fazer alguma coisa.
Já depois da meia-noite, duas horas depois do roubo, fui finalmente à esquadra, apenas porque gosto de coleccionar declarações da polícia a dizer que nos roubaram coisas. Ainda não tinha nenhuma em Checo. Juntei-a imediatamente à que tenho em Italiano, de outro roubo de que fui alvo e do qual recuperei os items em causa, graças à minha preocupação e não a algo que a polícia tivesse feito nesse sentido.
Acontece, porém, que esta declaração não foi obtida na altura, mas sim no dia seguinte, pois, imagine-se, àquela hora, as duas agentes na esquadra disseram-me que estavam demasiado ocupadas, assim mesmo. Ao sair, tendo já decidido que por aquele dia mais valia voltar ao Parque de Campismo, dormir e pensar no assunto no dia a seguir, bati violentamente com a porta, que era grande e de madeira. Fez um grande barulho, mas ninguém veio atrás de mim. Talvez estivessem mesmo ocupados.
Como devem imaginar, esta não foi uma altura particularmente alegre da viagem. Passei muito tempo a pensar no que deveria fazer, se deveria voltar para Itália ou não, alterar o percurso, ir pedir para a porta da loja, contando o sucedido e esperar que alguém tivesse pena. Depois de penar um bocado pelos cantos (da tenda), lá decidi que iria continuar a viagem exactamente como planeado, comprando outro bilhete de Interrail, ou os vários bilhetes de que necessitava separadamente. Depois de alguma pesquisa, e tendo em conta que ainda tinha de atravessar praticamente todas as zonas que pretendia (4 em 5), acabei por comprar outro bilhete de Interrail e, mais uma vez, global. No meio de toda a situação, ainda acabei por ficar contente por ter pago apenas 308 Euros (320 de acordo com o que está na minha conta bancária - já agora, eles cobram 2.25 Euros por cada levantamento de dinheiro no estrangeiro…). Acontece que a República Checa e Praga são baratas. O Interrail tem em conta o “desenvolvimento” do país no estabelecimento das tarifas e eu acabei por beneficiar disso.
Depois, bem mais animado e determinadíssimo a deitar o episódio para trás das costas, pensei que recriar as condições pré-roubo me ajudasse a esquecer e então tratei de ir a uma livraria que vendia livros estrangeiros e encontrei, por 6 ou 7 Euros, uma cópia da Anna Karenina, igualmente em Inglês, e igualmente um Penguin Classic. E assim pude continuar a contar com a companhia do Levin, do Vronsky e do Stiva nesta minha viagem solitária. Curiosamente, o livro que me foi roubado até nem era meu (e já não é a primeira vez que fico sem um livro que não é meu. Por isso, tenham cuidado com o que me emprestam). Pertencia ao Book Club que existe aqui no trabalho, de onde podemos levar livros emprestados, fazer pedidos, etc.. Assim, neste primeiro dia de trabalho, ao mesmo tempo que descobri que o clube adquiriu, entre muitos outros, as versões em Inglês de “The Razor’s Edge” do W.Somerset Maugham, “Sputnik Sweetheart” do Haruki Murakami, “The Stranger” do Albert Camus e “Memoirs of Hadrian” da Marguerite Yourcenar, combinei oferecer a cópia do livro que comprei em Praga ao Book Club.
De Praga ficaram recordações de uma cidade linda, a merecer nova visita (definitivamente, noutra época do ano). Mas também, talvez pelo facto de ser barata, de uma cidade cheiíssima de turistas e de ladrões. De facto, em poucas conversas descobri que só em Praga roubaram a carteira e os cartões de crédito a um brasileiro que conheci também em Praga, um Traveller’s Cheque a um irlandês que conheci em Cracóvia, na Polónia, uma máquina fotográfica a uma americana cujos pais conheci em Berlim, na Alemanha e outra máquina fotográfica + telemóvel a uma outra pessoa cujos amigos conheci também em Cracóvia. Todos os caminhos do roubo iam dar a Praga…
E a seguir fui para Cracóvia e para a Polónia…
“Vi o ‘Paris, Texas’, mas não posso falar agora”
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A mim, só me dizem estas coisas quando não podem falar…
Autumn
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“The leaves are falling, falling as if from far up,
as if orchards were dying high in space.
Each leaf falls as if it were motioning “no.”
And tonight the heavy earth is falling
away from all other stars in the loneliness.
We’re all falling. This hand here is falling.
And look at the other one. It’s in them all.
And yet there is Someone, whose hands
infinitely calm, holding up all this falling.”
É que podemos sempre
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Vieste de tão longe para tomar café. Vens sempre de tão longe só para tomar café.
Juntou-se muita gente ao redor da mesa.
Esperavam que lhes contasses a vida lá longe, a vida de outras gentes, como se as gentes não fossem iguais em toda a parte. Talvez quisessem que as gentes não fossem iguais porquanto isso lhes daria, também a eles, o estatuto de diferentes.
E foste despejando essa vida. As rotinas, os horários, o trabalho, o arranjar casa, e os filmes que se viam, e os livros de que se falava, e os transportes públicos e o tempo, a metereologia bem entendido, que eram essas as rotinas que aquela gente esperava sofregamente ouvir.
E eu olhava-te a segurares o copo da cerveja com a mão que agarrava também o cigarro e lia, nessas palavras rotineiras, as saudades que não admitias que tinhas.
Eu observava a cena no conjunto, e sentia este travo da existência de duas conversas, uma por cima da outra, como se planassem em diferentes camadas. A de cima, inofensiva e previsível. A debaixo, pouco segura e pronta a explodir.
Já de madrugada, não me deixaste ir embora sem me enlaçares longamente e pedires baixinho ao meu ouvido: “fica comigo, vem comigo”.
E eu fingi, por um momento, que não te ouvi, para, egoisticamente, sentir durante mais algum tempo o teu abraço, quente e seguro, até te dizer “não posso”.
E percebo agora que te menti, sem saber que mentia. Que podemos sempre. Que somos nós que escolhemos. Que podemos não gostar de nenhum dos caminhos, mas eles existem sempre e estão lá para serem escolhidos ou rejeitados. Por nós.
giving up
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“She maybe the face I can’t forget,
A trace of pleasure or regret,
Maybe my treasure or
The price I have to pay.
She maybe the song that summer sings,
Maybe the chill that autumn brings,
Maybe a hundred different things
Within the measure of a day.
She maybe the beauty or the beast,
Maybe the famine or the feast,
Maybe turn each day into a
Heaven or a hell.
She maybe the mirror of my dream,
A smile reflected in a stream,
She may not be what she may seem
Inside her shell.
She who always seems so happy in a crowd,
Whose eyes can be so private and so proud,
No one’s allowed to see them
When they cry.
She maybe the love that cannot hope to last,
May come to me from shadows of the past,
That I remember till the day I die.
She maybe the reason I survive,
The why and wherefore I’m alive,
The one I’ll care for through the
Rough and ready years.
Me, I’ll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I’ve got to be.
The meaning of my life is she, she, she–.”
Mrs Dalloway
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“Virginia Woolf: This is my right; it is the right of every human being. I choose not the suffocating anesthetic of the suburbs, but the violent jolt of the Capital, that is my choice. The meanest patient, yes, even the very lowest is allowed some say in the matter of her own prescription. Thereby she defines her humanity. I wish, for your sake, Leonard, I could be happy in this quietness.
[pause]
Virginia Woolf: But if it is a choice between Richmond and death, I choose death.”
Lady Windermere’s Fan
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“If we were always guided by other people’s thoughts, what’s the point in having our own?”
Oscar Wilde
caderno off, casa on
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Só dizemos às pessoas que gostamos delas, que desempenham um papel importante nas nossas vidas, quando estamos na eminência de as perder?
Se suspeitarmos que a atenção a que as pessoas nos habituaram pode diminuir, seremos capazes de mentir para não perdermos essa atenção?

