“Aguardo a resposta com a fome côncava do filho único. Viva quem é incendiário com palavras. Que arda vítima do seu próprio fogo, e nos deixe o ocre e cinza da esperança!”

Caramba…. Fico um pouco perdido quando leio coisas assim. Tenho um espírito talvez demasiado linear. Não que não saiba perrceber que 1+1 pode ser bem mais que 2, mas muitas vezes leio coisas e fico a pensar que perçebo bem pouco, e que ainda pior do que perceber pouco, nunca irei conseguir escrever sequer de forma semelhante.

“-Mas tu tens a tua forma de escrever, que é diferente…. é tua!”

Diria agora a Paula. É verdade, eu escrevo de uma forma que se aparenta muito com uma conversa, talvez por isso a minha escrita seja tão confusa, as ideias numa conversa são como o pensamento, correm livres e vão pegando em pontas soltas aqui e ali.
Mas a escrita que aqui transcrevi do Gabriel_MM é, para mim, confusa por outra razão. Pela forma como usa as palavras. Por exemplo “Aguardo a resposta com a fome côncava do filho único.” a fome côncava não consigo entender. Côncavo ou convexo para mim são conceitos geométricos, e por muito que eu tente não os consigo encaixar com o conceito de fome, muito menos quando se mistura a ideia do filho único. Eu tento. Eu juro que tento. Dizem que eu escrevo depressa, mas não consigo para aqui transmitir as tentativas de ligação que eu já fiz, foram muitas. Não consigo….. Sou humano :( ………. Sou humano……. Sou humano :D !

É verdade… Hoje conto 28 primaveras….. Ou como o frog colocou 28 voltas ao Sol. Isso parece imenso, por isso resolvi fazer umas contas:
365.2564(ano sideral)*(23 horas, 56 minutos e 4.091 segundos)(dia sideral) = 441993.4823324 segundos
É impressionante….
E que viagem eu fiz neste tempo?
Bem considerando que a terra orbita o sol a uma velocidade média de 30km/s (30 kilometros por segundo!!! ) eu já percorri cerca de 13259804 Km …
É bastante não é ? Infelizmente não. Ora vejamos…. um ano luz (distância que o luz percorre em um ano sideral) é 9 460 730 472 580.8 Km e considerando que Alpha Centaury (a estrela mais próximo do nosso sistema solar) está a 4,2 anos luz:
13259804/(9460730472580.8*4.2)=0.0000003337 ….. Ainda nem um milionésimo da viagem eu fiz!!!!

(Os mais atentos poderão dizer que as contas tão erradas, que não considerei a rotação da Terra em torno do seu eixo (peanuts in this calculos) que não considerei o movimento do Sistema Solar na Via Láctea (not peanuts), e que não considerei o movimento da via láctea na expansão do universo (se alguêm me disser um referencial para este eu talvez saiba se são peanuts ou não peanuts agradeço).

E pronto. Vou terminar. Já chega de asneiras!!! Nem tudo se perdoa só porque se faz anos.

9 Respostas a “Palavras”
  1. Ainda bem que não estou sozinho :D Para além da fome côncava (expuseste bem a questão), ainda por cima do filho único (será que os filhos que têm irmãos têm uma fome convexa? E isso é bom ou é mau?), eu também não consegui interpretar o “ocre e cinza da esperança”. Ocre parece que é “s. m., terra argilosa, colorida por um óxido de ferro com a qual se obtém um pigmento natural; a cor desse pigmento.”. Ok, admitamos que é uma mistela qualquer que em conjunto com as cinzas são propriedades da esperança (a esperança pode ser vã, e desfazer-se, esfumar-se como as cinzas e um bocado de argila). O Gabriel propõe-nos que fiquemos com isto (os restos da esperança), enquanto que os “incendiários com as palavras” (devem ser ele e a Paula) vão arder com o seu próprio fogo (sofrer por causa de alguém que consiga usar as palavras como eles).

    Hmm, será que isto é uma “no-win situation”. Se nós ficamos com o resto da esperança e vocês se lixam com as palavras uns dos outros, isto afinal serve para o bem de quem?

    P.S.: Eu e o Gustavo somos de Ciências, isto é normal, perfeitamente normal :D

  2. Wolfenstein diz:

    Bom, tenho de confessar que uma das coisas que me fascina na literatura é o facto de as palavras poderem ser tão abertas. Por exemplo a palavra “azul” pode ter um milhão de leituras e evocar uma coisa diferente em cada pessoa que a leia.

    Então na poesia a coisa é ainda mais fantástica. Que um autor escreva um poema que consiga comunicar algo a mil pessoas diferentes, com mil backgrounds culturais diferentes, podendo até essas pessoas estar (mais extraordinário ainda) a mil anos de distância, é para mim algo de completamente misterioso.

    Curiosamente, é exactamente o oposto que me fascina na matemática. A forma bela (e quase divina) como ela consegue ser una e universal.

    Mais curiosamente ainda, na esmagadora maioria das coisas que escrevi na vida, tive como objectivo ser o mais literal possível e eliminar totalmente quaisquer leituras alternativas (o que, sendo engenheiro, dá um certo jeito … pelo menos para os que me pagam o salário).

    Um escritor de quem eu gosto muito, Mia Couto, tem um texto engraçado sobre a língua, cujo o link deixo abaixo para quem tiver curiosidade (ou paciência) de o ler.

    http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia/miacouto.html

  3. Wolfenstein diz:

    lembrei-me desta

    “Language is a virus from outer space…” - William S Burroughs

  4. eu acho delicioso as interpretações das pessoas. elas têm a ver com aquilo de que elas são feitas. porque ninguém é uma tábua rasa. as vossas são um excelente exemplo disso :)

    retiro do texto do Mia Couto esta palavra: brincriações - vêem? :)

    tenho um carinho especial pelos autores que moldam, trabalham o texto. para além do conteúdo, sou seduzida pela forma…

  5. frog diz:

    Ainda sobre as palavras: um chinês contou-me –quem sabe se troçando do Ocidental ignorante– que um poeta chinês é um homem que *cria* pictogramas. A sua arte está em combinar palavras (pictogramas) conhecidos formando um novo significado resultante desta nova combinação. E o símbolo tem de ser belo. Isso tem como consequência que a ‘alta poesia’ apenas é entendida por quem já está muito habituado a ler poesia, pois o processo é sucessivo: quem não conhece um pictograma composto não consegue perceber outro que resulta de uma dupla ou tripla combinação a partir daquele. Por vezes, perceber o que o autor quer significar é muito complexo, dada a teia de relações e segundo me disse, é normal os eruditos (ou ‘mestres’, como me dizia o meu mestre de chinês :-) terem longas discussões sobre o significado de um pictograma, terminado por um ‘ahhh…’ extasiado quando, finalmente ‘atingiam’ o que o autor pretendia.
    Segundo ele, o sonho de todos os poetas chineses é criar O símbolo que contenha toda a existência humana.
    Os cientistas são mais modestos: apenas buscam uma equação que descreva todo o universo físico.

  6. Mas caro frog, apenas um pequeno recanto do coração tem esse desejo da unidade, o resto amaldiçoa todos as manhãs o Sr. Godel :)

  7. pois, falam, falam, falam… dos “literários”, mas depois uma pessoa tem de ir ver quem é o sr. Godel… :D

  8. Gabriel_MM diz:

    Isso provavelmente ia tirar toda a piada da coisa (e nao deve ser nunca entendido como uma tentativa de justificacaçao do que quer que seja), mas se vos aprouver, posso partilhar convosco aquilo que pretendia comunicar com algumas dessas expressoes. De qualquer forma… nao deixem que a obrigatoriedade de um entendimento mais “narrativo” vos castre de caminhos-tantos da poesia.

  9.  
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