Um amigo recente (a liberdade, é a escrita que mo permite) vai perder-se para Paris ao cair da noite.
Ficam aqui os votos de uma excelente perdição…

Sei que ainda falta uma resposta, que me apetece dar. Mas antes há que digerir bem o som e a voz :)

4 Responses to “mais um a viajar…”
  1. Gabriel_MM says:

    Aguardo a resposta com a fome côncava do filho único. Viva quem é incendiário com palavras. Que arda vítima do seu próprio fogo, e nos deixe o ocre e cinza da esperança!

  2. Alguém disse que eu gosto muito de citações. Pois este comentário do Gabriel fez-me lembrar desta:

    “That must be wonderful; I have no idea of what it means. ”

    Também é Camus.

  3. as palavras não são inocentes. a escolha de uma em detrimento da outra representa um modo de ver. e isso é absolutamente delicioso de descobrir :)
    para mim este texto desconstrói-se assim (perdoa, Gabriel__MM):

    quando a fome é muita, ela é côncava, como se a barriga se colasse às costas e nos dobrássemos para a frente.

    os filhos únicos (eu sou uma!) são conhecidos por quererem as coisas só para si. aqui numa espécie de egoísmo de guardar algo para si importante.

    os incendiários com palavras são aqueles que conseguem mobilizar as pessoas, que as conseguem motivar, que movem multidões.

    mas mobilizar não é bastante, é preciso que o mobilizador acredite nas suas próprias palavras e por isso arda vítima do seu próprio fogo. é consumar-se. às vezes sacrificar-se.

    por fim, que não nos deixemos abater pela demanda difícil. que o que fica do incêndio seja para nós motivo de esperança.

  4. Gabriel_MM says:

    Parfait! Num ou noutro ponto, a intençao inicial era uns milimetros mais ao lado, mas dentro do mesmo quadrante.

    A fome côncava é uma fome mais egoista. umbilical. A concavidade incita a um olhar limitado, que se resume a olhar-se a si mesmo; trata-se aqui, quase, de uma fome que se alimenta de si mesma, a fome da fome (gente da ciencia: uma fome que é a primitiva e a derivada de si mesma. A imagem funciona?); a fome que o filho unico sente face à possibilidade de um irmao; exigindo-o e renegando-o, em simultaneo. Uma fome que so nao é absurda, porque se lë na dimensao desculpabilizante do egoista.

    “Viva quem é incendiario com palavras”, claro como a àgua. Os mobilizadores, sim senhor, mas tambem os destruidores das quimeras vãs. Paris esta repleto dessas figuras incendiarias, as sempre vivas!
    Ardendo no seu proprio fogo, eles sao o sonho que se vê cumprido, geraçao seareiranum muito-mais-além Lusitano.

    O ocre e a cinza sao a promessa que se percebe na terra queimada e de novo fertil, caos nunca apocaliptico (no sentido de juizo final), mas inserido num ciclo de ressurgimento. Também ai, a natureza permite uma compreensao imediata da imagem - sejam o ocre e cinza invernal! O conceito serviu de base ao movimento anarquista: a destruiçao (morte) é promessa iniciada, esperança a deixar de ser utopia. Longe vao os tempos em que poemas verdes eram as odes da esperança. Mais longe ainda, o cor-de-rosa como seu mentor. Aprendamos com o ja citado Camus a respeitar a ausencia das certezas. Afinal, somos os juizes-penitentes que ele invocou. Ou nao seremos?

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