“Sem êle, quero dizer: só comigo, não teria sido possível a hoje infausta, mas até à data parecendo maravilhosa, formação do Grupo Surrealista de Lisboa.
E quanto ao que hoje preocupa os arrumadores – plateia, primeiro e segundo balcão, infelizmente extinta a magnífica geral – isto é, se é pequeno ou se é grande o sexo poético que ele tinha, se vai ou não vai ter um monumento fúnebre tão horrível como o que já fizeram ao Pessoa, e se vai para os Jerónimos ou para a Penha – acho mais interessante e mais importante saber-se que ele descendia dos primeiros reis da Irlanda, que lhe corria no sangue o vigor celta que teria dado força à língua portuguesa se trezentos anos de Inquisição e correlativas gramáticas, e agora os dicionários oficiais, não nos tivessem metido no buraco falado que habitamos.”
(ÃÂëCesariny phala de O’NeillÃÂû, A Phala nÃÂú 2)

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Auto-Retrato
“O’Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepunha de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
( omita-se o olho triste e a testa iluminada )
o retrato moral também tem os seus quês
( aqui, uma pequena frase censurada…)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…”
“Auto-Retrato”, in O’Neill, Alexandre, Tomai lá do O’Neill- uma antologia, Pref. António Tabucchi, Círculo de Leitores, Dezembro de 1986
Por incrivel que pareça, eu tinha o meu livro de Algebra I repleto de poemas de Alexandre O’neill e José Carlos Ary dos Santos. Motivo? Um professor comunista com amores à poesia. E os poemas apareciam sem justificação. Deliciosamente sem justificação. Auto-Retrato do O’neill era o primeiro.
Desconheço a obra de O’neill, mas Cesariny é um mestre. uma maravilha.