Apenas um Corpo

Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.

3 Respostas a “Eugénio de Andrade (1923-hoje)”
  1. É urgente o amor.
    É urgente um barco no mar.

    É urgente destruir certas palavras,
    ódio, solidão e crueldade,
    alguns lamentos,
    muitas espadas.

    É urgente inventar alegria,
    multiplicar os beijos, as searas,
    é urgente descobrir rosas e rios
    e manhãs claras.

    Cai o silêncio nos ombros e a luz
    impura, até doer.
    É urgente o amor, é urgente
    permanecer.

    Há mais aqui e aqui.

  2. RedScout diz:

    Cala-te, a luz arde entre os lábios,
    e o amor não contempla, sempre
    o amor procura, tacteia no escuro,
    essa perna é tua?, esse braço?,
    subo por ti de ramo em ramo,
    respiro rente á tua boca,
    abre-se a alma à lingua, morreria
    agora se mo pedisses, dorme,
    nunca o amor foi facil, nunca,
    também a terra morre.

  3. é urgente viver.

  4.  
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