Há alguns anos atrás um colega assistiu a esta situação: um jornalista recebeu um telefonema de um amigo e colega indignado. O jornalista tinha dito naquele dia cobras e lagartos do colega e amigo, numa coluna do jornal. O colega e amigo, obviamente, telefonou a perguntar o que era aquilo, já que nem imaginava que o jornalista podia pensar assim. O jornalista respondeu com um sorriso “ÃÂâ X-inho, era a brincar!”
Cada vez mais as pessoas dizem o que lhes apetece e principalmente o que lhes não apetece, sem pensar. Porque no fim podem sempre dizer “oh, era a brincar”. Desta forma, estão sempre seguras. As maiores imbecilidades podem ser ditas, sem preocupação de serem entendidas, sem preocupação de pensar se vão magoar alguém, porque se o outro se sentir, podemos sempre dizer “era a brincar”. Tudo o que dissermos pode ser desconstruído com essas três palavrinhas “era a brincar”. Assim, nunca nos comprometemos.
Isto vai mais longe do que as palavras.
Também noto que cada vez mais as pessoas “não são assim”. Acções, atitudes tomadas são desconstruídas num ápice, basta dizer “eu não sou assim”.
Basta mostrarmos discordÃÂância com o comportamento que logo levamos com um “eu não sou assim” (pelos vistos toda a gente é perfeita!)
Se tudo o que as pessoas dizem pode ser a brincar e tudo o que as pessoas fazem nada tem a ver com elas, com que é que ficamos?

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Isso é a sério ou a brincar?
Senti-me um bocadinho afectado por esse “Eu não sou assim”… Como hei-de explicar isto… Há diálogos e diálogos e há situações e situações… Por exemplo, no outro blog (naquele onde eu já usei essa expressão) há um ambiente de brincadeira, daí muitas vezes se escreverem coisas em tom de brincadeira que podem ser mal interpretados por outras pessoas. No dia a dia, as coisas são diferentes… ou não…
Ah, Ó Paulinha, era a brincar!
Há muito, muito tempo havia um homem que tinha medo de si próprio.
E tinha tanto medo de si próprio, que
não se via ao espelho
não pensava em si
não agia por si.
Tudo o que este homem fazia era, ainda que inconscientemente, condicionado pelos outros.
Se estendia o braço e apanhava uma laranja da árvore do vizinho e este o confrontava com isso costumava colocar a fatiota do arrependido e respondia: “Oh, lamento imenso. Eu não sou nada assim. Eu sou uma pessoa muito honesta. Eu não estava em mim. Eu não sei o que me deu” - e isto repetia-se para muitas e variadas acções.
Se dizia algo e intuía no ouvinte um olhar magoado, tornava: “Oh, era a brincar. Eu não estava a falar a sério. estava só a ironizar” - e isto repetia-se para muitas e variadas frases.
E repetia-se por tantas vezes e de tantas formas, que um dia, ao passar na rua, um outro homem travou-lhe do braço e perguntou-lhe:
- Quem és tu?
E o homem nada respondeu, continuando a andar rua abaixo pensando na pergunta. Nada lhe ocorria, nem o nome, nem como era, nem o que fazia.
Seria o que dizia ou seria o fazia?
Acordou na madrugada seguinte, banhado em suor, e percebeu que se tinha perdido a si próprio.
Agora por aí anda, doseia o “era a brincar” e o “eu não sou assim”.
Para se voltar a encontrar.
Mas principalmente para deixar que os outros o encontrem