Viajo muito. Muitas vezes são as pessoas que me levam. Também assim aconteceu desta vez. Fui dar, quase por acaso, ao país das pessoas. É um país bonito, mas com algumas peculiariedades, uma delas diz respeito a esta história que vos vou contar.
No país das pessoas, toda a gente faz exactamente a mesma coisa quando se levanta: agarram um saco cheio de certezas que colocam às costas.
Nunca ninguém saíu ou entrou em casa sem o seu saco de certezas. Assim que uma pessoa levantava uma dúvida, uma questão, a outra, lesta, tirava uma certeza do saco e brandia-a na frente da pessoa.
Que digo eu? Bastava a pessoa hesitar. Um hesitação e a pessoa estava feita. Levava logo com uma certeza em cima.
Um dia, ou melhor, uma noite, por um destes incríveis acasos, todas as pessoas adormeceram à mesma hora, o que significava que todas as certezas do país das pessoas estavam reunidas no grande cerco de pedra, onde as certezas eram guardadas durante a noite.
E por um segundo incrível acaso, foi exactamente nessa noite que se elevou uma voz cava, sobre o cerco onde estavam guardadas todas as certezas do país das pessoas:
- Todas as certezas são rídiculas - disse a voz
As certezas exaltaram-se, riram e penso que se ouviu uma a tentar fazer piadinha:
- Don’t be ridiculous! - (O sr. leitor há-de fazer o favor de ler esta frase com o sotaque exacto do primo grego daquela série de comédia de que não me lembro o nome. Não há-de fazer o favor? Há-de pois! Já que não tive tempo de fazer os efeitos sonoros, o sr. leitor há-de dar uma ajudinha)
Mas a voz ergueu-se novamente do breu da noite e repetiu:
- Todas as certezas são rídiculas
E depois de uma pausa em que nada se ouviu, acrescentou:
- Incluíndo esta!
E foi neste preciso momento que todas as certezas começaram a rebentar com o som exacto das bolas de sabão, mas num tom mais alto, evidentemente. (Não aqui não é preciso o caro leitor fazer o barulho, basta só imaginar)
O estimado leitor já está a adivinhar o que aconteceu na manhã seguinte…
O caos! As pessoas colocaram os seus sacos de certezas às costas, mas estes estavam completamente vazios e quando começaram a dirigirir-se para o seu trabalho e a falar com as outras pessoas perceberam que não tinham certezas e começaram a cair no chão e a contorcer-se como se estivessem cheios de dores.
E ficaram assim muito tempo, a gemer, a chorar e a contorcer-se por não terem as suas certezas, até o corpo estagnar de tão exaurido.
Até que uma pessoa começou a movimentar os braços, a tentar levantar a cabeça e disse para outra que estava prostrada perto:
- Olha, acho que me consigo levantar!
- Como consegues levantar-te? Se nem sequer tens a certeza de poder ficar de pé?
- Pois não, mas acho que vou tentar…
- Nao faças isso! E se caíres? E se não conseguires manter-te de pé? Não tendo a certeza de conseguires ficar de pé ou de saberes para onde vais é muito arriscado…
A pessoa ficou pensativa e depois disse:
- Sim, mas se não tentar nunca vou saber. Prefiro arriscar. Mesmo que não consiga não faz mal. Pelo menos poderei dizer que tentei. Na verdade, não consigo ficar com esta dúvida. Tenho de ter a certeza se consigo ou não.
E ante a outra pessoa incrédula, a pessoa lá se ergueu a custo e começou a andar. A pouco e pouco todas as outras pessoas se foram levantando e logo, logo o país das pessoas voltava à normalidade.
E foi assim que no país das pessoas, antes governado por certezas, as pessoas começaram a conseguir viver com as suas dúvidas.
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3 Responses to “Viagem ao país das pessoas”
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Quando me perguntaste como se escrevia ridículo a primeira coisa em que pensei foi nesse natural de Myphos, de seu nome Balki a dizer para o seu primo Larry “Don’t be ridiculous”
Era uma delícia essa série, nunca mais vi, nem me lembrava já do nome das personagens, mas ficou sempre a expressão. Lembro-me que faziam parte daquelas expressões que repetíamos com os colegas
O Balki então era de uma inocência enternecedora.
Bonito post.