“O ar sente-se quente. Os vermelhos, castanhos e amarelos inebriam. Umas notas argentinas atravessam o fumo denso da sala.
Vens direita a mim. Imagino que vais sorrir e olhar-me nos olhos. Talvez traves o passo e me dispenses algumas palavras. Talvez me agarres e me arrastes para o centro num passo de dança.
Mas não.
Moves-te rapidamente dentro de um vestido preto muito justo e passas por mim, olhando-me, mas sem me ver.
Alguém te agarra o braço e te faz voltar para mim.
- Conheces o Zé? - perguntam-te
Olhas-me como se fosse a primeira vez.
- Não - respondes
Colocas um sorriso de circunstÃÂância. Sincero, porque é a primeira vez que me olhas.
Será possível conhecer alguém profundamente, sem que essa pessoa saiba sequer que nós existimos?“
|
6 Respostas a “Respiro”
Deixe uma resposta
|

Tópicos (RSS)
Depende de tanta coisa.
Estamos a falar de alguêm que tem uma vida publica, que escreve e se expõe? Ai acho que se pode dizer “talvez” mas um “talvez” bastante hipotético……
Não creio, porque o ‘conhecimento’ de outrem é subjectivo: és alguém para mim, outrem para ele, ainda outra para um terceiro e por aí fora; e ainda outra para ti própria. Assim, como podes ‘conhecer alguém profundamente’ sem que ocorra a interacção que determina a visão que irás ter desse outro que pretendes conhecer?
(mas sempre podes ficar a saber como desejas que esse outrem seja…)
Talvez seja impossível conhecer o outro profundamente.
Mas como conhecer o outro? Exemplo: relaciono-me com uma pessoa através de vários meios, email, instant messenger, através de sites que permitem interactividade, pessoalmente e por carta escrita em papel :), em cada uma destas formas essa pessoa tem um conjunto de reacções diferentes. Observo como essa pessoa interage com outras e reparo que também tem reacções diferentes. O conhecimento dessa pessoa será o conjunto destas observações (que às vezes parecem até antagónicas) ou meramente aquelas que se relacionam comigo?
Quando a pessoa não sabe “sequer que nós existimos”, no sentido em que se relaciona connosco como com qualquer outra pessoa, se observarmos esta pessoa no seu relacionamento com os outros à sua e à nossa volta, poderemos tomar isso como conhecer a pessoa?
Outro exemplo: conhecemos a pessoa A (de vista, porque é amiga de amigos, porque escreve para um público, porque reage para outros que não nós), observamos essa pessoa e conseguimos prever a reacção, diferente, dela à pessoa B e à pessoa C, porque observamos que a pessoa A tem uma postura e atitude diferente consoante exposta a estas duas outras pessoas. Podemos dizer que conhecemos a pessoa A?
Isto é, será possível conhecer o outro pelo conjunto das suas relações com outros, que não nós?
Mais um exemplo: duas ou três pessoas dizem-me que a pessoa X é radical e intolerante. O conhecimento pessoal que tenho dessa pessoa não me permite descrever essa pessoa com tais adjectivos. Quem conhece essa pessoa? Os outros, que se encontram em maioria e têm uma opinião unânime ou eu?
Considero que é mais saber como desejamos que o outro seja. Porque construímos o outro, tal como construímos qualquer texto (em sentido lato - imagem, som , situação) através do background que temos. Desta forma, as nossas acções e reacções estarão sempre condicionadas pela forma como somos, e dependendo do tipo dessas acções e reacções em relação ao outro, esse outro terá reacções e contra-reacções diferentes.
O outro será sempre, para nós, uma parte de nós. Talvez só possamos conhecer o outro na medida em que nos conhecemos a nós próprios.
(xii… se precisarem de alguém que vos confunda, digam. comigo resulta
)
Confundir? De modo nenhum: acabas de enunciar com total clareza o ‘Princípio da incerteza de Heisenberg’ aplicado à natureza humana…
Lol
Tive agora uma imagem fantástica: eu que cada vez que ouvia Heisenberg remetia para os electrões marotos que nunca deixavam saber tudo sobre eles… lembro-me disto escrito a giz num quadro preto da Brotero, numa aula (talvez física). Também associo esta imagem ao sr. Schrõdinger e à sua equação… numa recordação nebulosa… hei-de voltar a essa matéria
Cada vez mais tenho aquela sensação de como os alunos são injustos quando dizem “isto não nos vai servir de nada!” (algumas vezes eu também disse :-$ ). Também tenho dificuldade em explicar esta sensação aos que ainda são alunos…