Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como
crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam.
Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua
magnificência, se vestiu como qualquer deles.

in ‘O Sermão da Montanha’

……

É um homem pequeno, franzino, magro, de cabelos
escorridos, e transmite a impressão de ser
permanentemente desleixado com a sua aparência.

Conheci-o por ser professor de um filho meu, bastante
diferente de outros professores. Após conversarmos um
pouco senti de imediato uma empatia que creio mútua. Já
não falávamos do aproveitamento escolar do meu miúdo,
mas sim da Natureza magnífica dos campos do Baixo
Mondego, das aves, dos problemas da poluição.
Conversámos sobre a atitutude das pessoas perante o seu
mundo, que ia desde o respeito pela Natureza até às
suas exigências como cidadãos, dos seus deveres e
direitos como seres de um mundo natural e não apenas comercial.

Saí da ‘reunião com o encarregado de educação’ feliz.
Sim, feliz! Sentia-me bem por ter conversado com uma
pessoa inteligente, sensível, simpática. Sentia-me
feliz por um dos meus filhos ter um professor assim.
Estava bem entregue.

Fui sabendo dele esporádicamente por um amigo comum.

Encontrei-o novamente daí a uns meses, por acaso.
Voltámos a conversar sobre tudo e nada, sobre o mundo e
sobre os motivos das nossas preocupações. A minha boa
opinião sobre ele subiu uns pontos mais. Ficámos de nos
encontrar mais vezes.

Quando nos separámos pensei em como havia tantas
pessoas de valor e de como as suas potencialidades eram
ignoradas ou mesmo combatidas por causa do seu aspecto
sempre descuidado, da sua postura tão pouco
convencional, mesmo ‘marginal’. A alegoria do ‘petit
prince’ permanece actual.

Há uns dias o meu filho chegou a casa e disse-me,
displicentemente: “—Pai, lembras-te daquele meu
professor ? A Directora de Turma disse que ele nunca
mais ia dar aulas”.

Telefonei de imediato ao nosso amigo comum e soube por
ele que o caso era ainda mais estranho do que eu
imaginara: “—Ele desistiu definitivamente de ensinar”.
Pela descrição fui reconstruindo o que acontecera: ele
não se fartou dos alunos, mas dos colegas. Um ambiente
fechado, conservador, os comentários mesquinhos,
continuados, os silêncios ao entrar na sala dos
professores. Também os alunos não ajudavam: o mimetismo
com o que vão ouvindo dos pais e mesmo dos outros
professores e que era aproveitado para o desconsiderar
sempre que lhes convinha. Uma variante de cueldade
infantil para com os mais fracos, com o ‘frisson’ de ser
o professor. E no caso dele a certeza de que não
haveria punições nem Conselho Directivo.

“—Mas o que vai ele fazer agora?”—Ele não sabe nem
quer saber. Decidiu, para já, viver da terra e da caça
e da pesca. Nem sequer pediu subsídio de desemprego:
diz que vai viver do mealheiro que foi fazendo, que tem
um quintal ao fundo da casa (uma das suas paixões), que
agora faz o seu próprio pão, que trata do terreno, que
faz ‘pequenos serviços’ e que anda livre. Livre. Essa
foi a palavra que ele usou: diz que se sente Livre. Que
andava ‘doente’ com o trabalho, que estava farto de
tudo e de todos, que cada dia em que tinha de dar aulas
era uma angústia sem fim, que chegou a ir a um
psiquiatra. Diz que foi quando explicou ao psiquiatra o
que o atormentava que tomou consciência de que ***não
queria*** ser tratado: ele não queria comprimidos para
’ser capaz’ de suportar aquela vida: o que ele queria
mesmo era deixar de fazer aquilo: queria sair de manhã
cedo para ver o nascer do sol e os pássaros a voar em
bandos. E que se não lhe apetecesse queria poder
deixar-se dormir até mais tarde e tomar o pequeno
almoço no terraço junto forno onde cozera o pão. Queria
poder aprender mais sobre aquela região, sobre as aves,
sobre o ecossistema dos paúis e dos pântanos. Queria
poder fazer o que bem lhe entendesse. Queria poder
almoçar às cinco da tarde ou não almoçar. Queria ter
tempo para ir visitar os amigos e ficar até lhe
apetecer, enfim, queria ser livre de decidir o seu destino.

Diz que não sendo casado, nem tendo filhos não tinha
responsabilidades a não ser por si e pelos seus actos,
pelo que queria viver plenamente a liberdade que lhe
era concedida. Que encarava isto como uma revelação. E
que decidiu não se auto-destruir levando uma vida que
considerava estúpida.

Quando desliguei o telefone sentia-me perturbado. Como
não achar profundamente sensata esta decisão
irracional? Mas como será possível viver hoje, em pleno
século XXI, desse modo? Afinal, já não estamos na era
dos ascetas: não é possível viver à margem. São
necessárias ligações ao mundo para aceder a tantas
coisas, até mesmo ao conhecimento. E do que ia ele
viver? De expedientes? Mas isso é vida? Uma pessoa
sensível como ele? Ou eu estaria a ser simplista
demais? O que ele fez foi ‘apenas’ uma opção. Abandonou
uma vida que não queria viver. Estão-lhe agora abertas
as portas para outra vida. Será mesmo pior? Afinal, as
oportunidades só surgem para quem está aberto para as receber.

Vi-o passar hoje de manhã. De bicicleta. Ia para a
pesca. No seu rosto levava estampado um sorriso, uma
alegria que não sou capaz de definir. Ao vê-lo
afastar-se pensei na mensagem bíblica: “Olhai os lírios
do campo!”.

2 Respostas a “O Professor”
  1. Tou a ouvir uma banda chamada eels, e estava agora a passar uma faixa chamada de “beautiful freak”. A sociedade não gosta de “freaks”. São estranhos, olham de dia para o céu e vêm estrelas, dormem de noite e têm sonhos, acordam de manhã e tentam que estes se realizem.
    Daqui a umas semanas devemos ter belos campos cheios de lírios, marcamos um passeio?

  2. Paula diz:

    Belos campos cheios de lírios e sorrisos que não conseguimos definir. Marcamos, pois.

  3.  
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