Olá amigos!
Escrevo de Frascati, uma localidade 20Km a Sudeste de Roma. É aqui que trabalho desde ontem.
É tudo ainda muito novo para dizer alguma coisa de definitivo sobre o que quer que seja, mas posso falar-vos do que me aconteceu desde dia 5.
No primeiro dia fui até Madrid. Perdi-me ao chegar. Dormi em casa de uma amiga Grega. Foi o primeiro dia em que senti medo e dúvidas sobre o que estava a fazer. Antes de ir andei emocionalmente afastado de tudo o que a viagem envolvia, como mecanismo de defesa, penso. Depois, foi um turbilhão de emoções que custou a enfrentar. +/- 550 Km.
No segundo dia fui de Madrid até La Jonquera, mesmo mesmo na fronteira entre França e Espanha. Psicologicamente foi o dia mais difícil. O sono espreitou algumas vezes, sobretudo na auto-estrada entre Madrid e Zaragoza que é extremamente monótona. Tinha marcado hotel pelo telefone. Onde? Em Maçanet de Cabrenys, nos Pirenéus. Pensava eu. Na realidade, este hotel estava encerrado. Tinha dormida marcada para outro hotel das mesmas pessoas. Segundo a senhora, “Questo es en el otro lado de Los Pirineos, a 3 hora de aqui”. Já tinha andado perdido durante vários quilómetros até encontrar a estrada certa para Maçanet, que envolvia 11Km de curvas e contracurvas perigosas e extremamente mal assinaladas. Telefonei para o hotel a desmarcar e decidi ir até La Jonquera. Lá haviam 3 ou 4 hotéis. Escolhi um que não era o mais barato, mas tinha parque para o carro, o que era um requisito muito importante para mim. O hotel era bastante bom, mas jantei muito mal. Peixe com batatas, alface e tomate intragáveis. Bad idea
Mandei um SMS aos meus pais com o número do hotel, eles telefonaram e “llamada para sí, seÃÂñor”. Falei com os meus pais sobre os meus receios e fiquei muito melhor. A partir daí, foi sempre bom. +/- 850Km
No terceiro dia da viagem fui de La Jonquera até Tirrenia, uma pequena localidade entre Pisa e Livorno. Tinha marcado o hotel. Perdi-me outra vez bastante. Neste dia atravessei a França toda e foi espectacular passar por Cannes, Nice, o Mónaco e os Alpes. Tenho de lá ir. Os Alpes significam muita beleza natural e imponência. Para construir estradas, significam muitos túneis e pontes ao pé de ravinas que dão para o mar. Para quem conduz, muito perigo. Tudo é auto-estrada, mas o conceito de auto-estrada alpina é MUITO diferente. Não sei se por serem os Alpes, se por serem os Italianos. Houve curvas, na auto-estrada, que dei a 60 Km/h e a certa altura achei que era demasiado perigoso e encostei-me à faixa da direita onde podia ir com mais calma. Atravessei seguramente mais de 50 túneis. O primeiro contacto com o trÃÂânsito italiano foi, assim, traumático. Ainda bem, porque preparou-me para aquilo que vou enfrentar este ano. Os italianos são doidos a conduzir. Andam demasiado depressa, mesmo em auto-estradas como aquela. Não respeitam regras. Aliás, há algumas coisas que já posso referir, sem correr risco de estar enganado. Primeiro, não é proibido ultrapassar em lado nenhum. Mesmo que haja traço contínuo ou duplo-traço contínuo. Se der para ultrapassar, ultrapassa-se. Segundo, quando eu quero entrar numa estrada, venha eu de onde vier, é responsabilidade de quem lá vem não me bater. Eu posso entrar como bem entender. Os outros que se desviem ou arranjem maneira de não me bater. Se me apetecer, posso apitar, e o outro também. Antes e depois. Isso é perfeitamente normal. Terceiro, numa estrada com mais que uma faixa em que eu tenha de dar uma curva ao mesmo tempo que outro, é perfeitamente normal eu invadir a faixa do outro. Ele é que tem de se desviar para não batermos.
Bom, depois disto tudo, tive de dar voltas e voltas até encontrar o Hotel Medusa. Foram mais de 900Km duros, mas que enfrentei psicologicamente sem problemas. O hotel era mais caro que o espanhol e não tão bom. Comi muito bem, uma especialidade italiana.
No último dia de viagem, como já estava a apenas quatro horas de Roma, comecei por voltar para trás, para Pisa e aproveitei para passar algum tempo junto da Torre Inclinada e de toda aquela zona histórica. Saindo da praça principal, à esquerda há uma gelataria onde, disse-me alguém, “se comem os melhores gelados que alguma vez comi”. Não provei.
Andar a ver monumentos sozinho não é a mesma coisa. É preciso alguém com quem partilhar. Não pude deixar de pensar “OK, estou aqui. Mas afinal, qual é o interesse de ver uma torre inclinada?”. Só por as coisas estarem normalmente direitas é que isso é relevante. Sim, é bonita, mas continuam a ser pedras. Acabei por gostar mais de andar pelas ruas estreitas à volta a ver o artesanato, os alfarrabistas, gente com imensas colecções de discos de vinil e K7s. Mas o facto de andar por ali sozinho deprimiu-me um bocado. E ainda tinha de chegar a Roma, claro…
Como passei demasiado tempo em Pisa, atrasei-me e cheguei a Roma já de noite. Enganei-me na saída da auto-estrada, passei montes de tempo a conduzir pela grande Circular de Roma e cheguei a enfiar-me no trÃÂânsito absolutamente infernal de Roma. Espero nunca ter de conduzir ali. Já me disseram que os comboios e o metro são bons, pelo que vou por aí. Quando consegui finalmente voltar à Circular, os meus planos iniciais tinham ido por água abaixo porque partiam do pressuposto que eu saía no sítio certo. Mas eu sabia que Frascati era perto do aeroporto secundário de Ciampino e fui nessa direcção até que dei com a Via Tuscolana, que constava dos meus planos iniciais. Depois ainda me perdi mais um bocado, mas lá encontrei o ESRIN, e finalmente, Monteporzio, a localidade onde estou neste momento a dormir.
Estou num “Bed & Breakfast” duma família muito simpática que me acolheu de braços abertos . “Fare como state en su casa” disseram. O Raffaele, a Patrizzia, a Francesca e a Claudia. Os Coppolas (no relation. Já perguntei :)). Jantei com eles na primeira noite (pizza). Almocei com eles depois de ter dormido MUITO no dia a seguir (pasta per primo piatto e carne al potate per sigondo piatto). Eles têm este hábito estranho de ter dois pratos a todas as refeições, por mais simples ou apressadas que tenham de ser. E a “pasta” costuma ser o eleito como “primo piatto”. A comida é simplesmente divinal. Só provando mesmo. Tenho comido pizza todos os dias, especialmente ao jantar, mas mais por razões económicas. Há muito mais coisas.
O trabalho já aperta um bocado, sobretudo por iniciativa minha. Venho com maus hábitos de Portugal que tenho de vencer. Tenho de me deitar e acordar cedo, e não me dispersar, sobretudo com a Internet. Ainda não tenho gabinete, nem computador, nem telefone, nem crachá meus, mas até ao final da semana deve estar tratado. Estou temporariamente no gabinete do Mr. Albani, que é um gabinete no último andar, com vista sobre Roma, do tipo Top Management (não há melhores…). Ele não está cá e eu estou a aproveitar o cabo de rede dele, o que deve ir contra a política de segurança daqui.
Ando à procura de um sítio para morar e vi hoje um que pode bem ser o candidato certo. Fica em Montecompatri, a 30Km de Roma. Até ao ESRIN são cerca de 10Km, mas dada a maneira como as coisas funcionam aqui, acreditem que é bastante bom. Pelo preço, pela localização, por tudo. Frascati é muito barulhento, tem muito trÃÂânsito e é muito caro. Só que Monteporzio e Montecompatri são bem mais pequenas e rurais até. Mas gostei do sítio. Não é moderno, mas pelo preço, oferece óptimas condições.
Quanto ao que vou fazer por cá, o meu contrato diz que tenho de “observe complete discretion with regard to all matters relating to the activities of the Agency”. E vai bastante mais longe até. Um bocado ao esilo Microsoft (todos os direitos de copyrights/patents são deles e tal…). Mas acho que posso dizer que vou trabalhar no Ground Segment do Envisat. O Envisat é um satélite que basicamente manda informação científica cá para baixo. Sobretudo para fins meteorológicos/prevenção de catástrofes (tipo tsunamis)/geologia/oceanografia/gestão de recursos florestais, etc., etc.. O Ground Segment é a parte que está cá em baixo, na Terra, a receber os dados, a processar os dados, a distribuir os dados, a armazenar os dados.
O meu chefe, na teoria, chama-se Vincenzo Beruti e é Italiano. Os meus chefes, na prática, são o Nigel Houghton, que é Inglês, e o Eric Doyle, que é Irlandês. Portanto, dois britÃÂânicos, o que me agrada.
É muito cedo para adiantar mais qualquer coisa, mas posso dizer que definitivamente adoro o ambiente internacional de trabalho. Mas é exigente. Toda a gente fala montes de línguas e eu tenho de me reduzir à minha insignificÃÂância. Afinal sei muito menos do que pensava. Há gente a falar muito bem Inglês, Francês, Italiano e Espanhol ao mesmo tempo.
Relativamente a outros portugueses cá, estou-me a dar bem com o Fabrice Brito, que é meio Francês, meio Português, mas nasceu na Bélgica e vivia em Lisboa. Está cá há dois anos. Fala perfeitamente Inglês, Francês e Português e muito bem Italiano e Espanhol. Já conheci outros dois, mas um vi-o hoje pela primeira vez e acho que trabalha longe de mim. O outro vi-o e sei onde trabalha, mas acho que é uma pessoa bastante reservada. Também há uma senhora, no Departamento de Relações Públicas, que ainda não conheci.
Espero ter pedalada para isto. De qualquer forma, até agora só tenho lido “background material” para me ambientar com as coisas. De vez em quando aparecem frases como “integration of the FM PLM to the SM” ou “confirmation of SM StM Clamp-band and PLM StM Appendage Release Shocks”. Basicamente não se percebe nada, porque ninguém consegue decorar o que significam todas as siglas…
Agora vou comer pizza :D.
Já são 20:45 aqui e supostamente sai-se às 17:15…

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Bom, rapaz, acho que já te perdeste o suficiente durante a viagem, para o resto da tua vida. Bem-vindo e (ía dizer bom trabalho), mas não, é antes boa pizza

Sim, e este foi, decididamente o post mais longo de toda esta casa
Até amanhã.
Agora que já dormi sobre este texto só tenho uma coisa a dizer: TU FOSTE A CONDUZIR DAQUI PARA ITÁLIA????!!!!
Tá vivo, com cama, e parece que até se dá com a comida. Vai-se safar :).
() bem forte.