“1 hora 10 horas 100 horas 10000 horas”

Comprara um bilhete a mais. Comprara-o para alguém que já sabia não poder ir. Por isso, o lugar à sua direita, na sala de cinema, ficara vago durante toda a viagem para 2046. Era o nº 14.
Talvez fosse melhor assim. Se o objectivo era recuperar memórias perdidas, talvez fosse melhor ir sozinho.
Sentia a cabeça a latejar e o corpo exaurido. Dormira muito mal na noite anterior. Acordara muitas vezes e o pouco que dormira era um sono fragmentado, demasiado leve, hesitante.
Talvez fosse a iminência da viagem.

Mas agora já não podia voltar atrás. Era esta a última oportunidade para ir até 2046.

“I once fell in love with someone
After a while, she wasnÂ’t there
I went to 2046
I thought she might be waiting for me there
But I couldnÂ’t find her
I canÂ’t stop wondering if she loved me or not
But I never found out”

Procurá-la. Recuperar as memórias perdidas. Ocupar o tempo do outro ou deixar que o outro ocupasse o seu tempo.
A viagem não foi muito tranquila. De quando em vez, sentia-se empurrado com violência contra as costas da cadeira. Isto acontecia sempre que do outro lado da sala se erguia, no escuro, uma gargalhada. Uma gargalhada sem sentido, despropositada, como se o seu dono estivesse numa viagem diferente.
Lembrava-se de ter pensado que o eu e o outro não vêem as coisas da mesma maneira e que, provavelmente, era isto que provocava os desencontros.
Isto e os segredos.

“BeforeÂ…
Â…when people had secrets they didnÂ’t want to share
Â…theyÂ’d climb a mountain
TheyÂ’d find a tree|and carve a hole in it
And whisper the secret into the hole
Then cover it over with mud
That way. nobody else would ever discover it”

Durante a viagem viu um homem apaixonar-se por uma andróide com movimentos retardados. Se lhe era dito algo que a fazia chorar, as lágrimas só brotariam no dia seguinte.
O homem pediu à andróide que fossem embora juntos, mas ela nunca respondeu. O homem Concluiu que a andróide não respondia, não por ter os movimentos retardados, mas porque amava outro homem.
Ele, sentado na cadeira, que via os movimentos, que surpreendia os olhares e os silêncios ficou a pensar que os movimentos retardados poderiam bem ser a causa da perda do amor.
Mas quando pensou isto, lembrou-se de alguém que lhe havia dito:

“recuso-me a acreditar que podemos perder alguém verdadeiramente importante só porque nos atrasamos”

E isso descansou-o.

A viagem acabou antes do seu término. Os outros passageiros começaram a levantar-se e a sair da sala.
Ele vestiu o casaco, dirigiu-se à porta e acendeu um cigarro. Enquanto esperava olhava ainda para dentro da sala e deixava os ouvidos enebriarem-se pela música. Foi movimentando-se para trás, sem dar por isso, até colar o corpo à parede.
Foi nesse instante que compreendeu a fragilidade. Foi nesse instante que percebeu porque as personagens se agarravam às paredes.

“No amor não há substitutos.”

2 Respostas a “Exercício sobre o 2046”
  1. Jorge diz:

    Também tive que fazer uma ‘viagem’ apressada para não perder o último dia de exibição de “2046″ no Avenida em Coimbra. Apenas um comentário… excelente!

  2. Paula Simões diz:

    Foi uma belíssima viagem, sr. Jorge, belíssima.

  3.