Numa rua do Porto, pertinho da Estação de São Bento, à entrada de uma pastelaria está um Homem.
É preciso subir um degrau e dar dois passos para alcançar a porta da pastelaria.
O Homem mantêm um pé em cima do degrau e o outro em baixo, na calçada. Cada vez que alguém entra ou sai, o Homem inclina o corpo dorido para abrir a porta a quem entra e a quem sai.
A posição em que o Homem coloca o corpo deve doer-lhe porque de vez em quando massaja a perna que apoia na calçada. Às vezes sobe os dois pés para cima do degrau, mantendo as duas pernas ao mesmo nível, mas logo, logo sai de dentro da pastelaria um empregado a enxutá-lo para baixo.
Poucas pessoas lhe dão alguma coisa, muitas nem se apercebem que ele está ali, dobrando-se para lhes abrir a porta.
O que mais dói é a expressão daquela cara, de subserviência. De um Homem subserviente. Nenhum Homem deveria ter esta expressão. Nenhum de nós deveria deixar que um Homem pudesse ter esta expressão.
Passei o Natal debaixo dos cobertores, muito triste, mas muito quentinha. E não consigo deixar de pensar: como terá passado o Natal, aquele Homem?
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2 Responses to “O Natal daquele Homem”
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Passei o Natal debaixo dos cobertores, muito triste, mas muito quentinha.
Abre-se assim o espaço para uma sessão de terapia de grupo. Diz-nos, cara Paulinha, porque passaste o Natal triste e debaixo dos cobertores? Sabes que a vida é uma questão de perspectiva. É bem possível que estivesses mais triste do que o homem de quem falas…
E sabes que acho que sei qual é a pastelaria de que estás a falar? Numa das minhas excursões solitárias do ano passado, fui de comboio para São Bento. À noite, sozinho e com frio, ainda consegui arranjar um bilhete para o último comboio que ia de São Bento para Coimbra-B antes das 6:00 do dia seguinte. Ainda tive cerca de uma hora de espera pelo comboio, que aproveitei para comer alguma coisa na pastelaria que fica mesmo à frente da Estação de São Bento, na esquina daquelas duas ruas largas. É essa?
Acho que não. Sais de São Bento e viras à direita rumo à igreja. de frente para o edifício, contorna-lo pela esquerda, passas pela CGD e por um edifício estranho que parece ter um MacDonald’s (acabei de conspurcar este blog, desculpem) dentro. E cortas na primeira rua à direita. Tens a tal pastelaria com a entrada recuada, mais ou menos a meio da rua que desagua no largo do café Roma, e em frente uma mais pequenina, quase um café, de onde vês a entrada.
Olha, olha mais um que vai ao Porto sozinho, também andas a fazer terapia?
Relativamente ao primeiro parágrafo do teu comentário levas a resposta que pediste:
não se abre espaço para terapia de grupo coisíssima nenhuma.
não sei nada da vida
e é altamente improvável que a minha tristeza possa sequer ser comparada a uma pessoa que não tem um tecto, nem comida.