Os centros comerciais começam a estar cheios de luzinhas e música. As montras das lojas recheiam-se de manequins esqueléticos enfiados em vestidos de noite muito estreitinhos. Também começam a chegar convites para essas festas de passagem de ano, que pedem os tais vestidos estreitinhos. Além disso, a tal passagem de ano será sempre depois do Natal… E o Verão (e as dietas e os adelgaçantes) já está muito distante…
Agora que já coloquei em pÃÂânico 90% das mulheres que visitam esta casa
(das 10% restantes, cinco terão um encontro com as pantufas e as outras cinco, serão, então, as tais mulheres com pernas até ao pescoço e uma figura em que qualquer trapinho assenta bem) talvez possamos falar de coisas realmente interessantes: publicidade.
Reclamo 1
É a um concurso. Vê-se uma sala de aula com alunos crescidotes a fazerem algum ruído. Entretanto a professora entra na sala. Os alunos vão acalmando à medida que a professora vai escrevendo uma sucessão de números, até que coloca os braços no ar e sai da escola aos pulinhos e saltinhos de contente.
Esta professora ganhou muito dinheiro no tal concurso a que se refere a publicidade. Por isso, vai deixar de dar aulas: já não precisa… para além disto, ainda vai à escola dizer aos alunos que se vai embora porque ganhou muito dinheiro e já não tem de os aturar…
Não sou professora, embora tenha alunos sob a minha responsabilidade, mas sinto-me profundamente ofendida.
Reclamo 2
É a uma cerveja. Há uma praça onde estão várias pessoas e começa a chover. Todas as pessoas fogem da praça, que fica deserta e triste e cinzenta e solitária e escura… Depois a cÃÂâmara leva-nos num travelling até uma uma divisão de uma casa onde há luz e alegria e risos e gente a falar e muita cor e… com uma cerveja na mão.
Tendo em conta que Portugal é dos países com uma taxa elevada de consumo de álcool e que cada vez mais a nossa sociedade se debate com o problema da solidão… este reclamo afigura-se-me chocante.
Reclamo 3
É a outro concurso. Dizem “Aposte na amizade”, “Aposte na felicidade”, “Aposte no amor”, “Aposte nos seus sonhos”. Tendo em conta que não vejo referência àquilo que as apostas poderão dar aos mais desfavorecidos, concluo que é para levar no sentido de quem ganha o prémio… em dinheiro. É mesmo esta a linguagem da nossa sociedade?
Se tiver dinheiro terá felicidade? Se tiver dinheiro terá amor? É este tipo de discurso que fará com que este reclamo atinja o seu fim? É esta a nossa linguagem? Será possível que alguém tenha pensado que este ‘chamariz’ poderia funcionar como um ‘chamariz’?
Desculpem, sinto-me particularmente mordaz hoje…

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