Gosto muito dos genéricos dos filmes do Wong Kar Wai. Gosto tanto dos genéricos dos filmes do Wong Kar Wai como dos genéricos dos filmes do Hitchcock. Ir ao cinema faz parte de um ritual e os genéricos dos filmes do Wong Kar Wai funcionam como a preparação para esse ritual.
Deste filme, “2046″, apetece falar das paredes. Da solidez das paredes. Mas também das personagens. Da fragilidade das personagens. Da necessidade das frágeis personagens se misturarem com as sólidas paredes.
Este é um filme de luz e sombra. Mas é também um filme sobre metades de qualquer coisa à procura de outras metades. A lua de ontem corroborava. De regresso ao Pólo II, em segunda para poder apreciar o privilégio concedido, espraiava-se à minha frente uma metade perfeita de lua.
Uma lua cortada ao meio, com uma metade na sombra e outra na luz.
Apetece falar também do “fiquei feliz por vê-la feliz” ou do “Não me importo se amas ou não. Amo-te na mesma”. É que há filmes assim, que nos regeneram.
Apetece falar da poesia deste filme. E dos 10 dólares, e das 10 horas, e das 100 horas, e das 1000 horas. E da viagem.
E apetece falar da música que enebria, da sensualidade dos silêncios, das cores e do fumo que se evola no ar. E apetece falar dos encontros, dos desencontros e das escolhas.
E podia ainda falar da escrita. E ao falar da escrita teria de falar da incapacidade de ser feliz ou da escolha de não ser feliz ou da felicidade não estar na felicidade, ou de pensar que não temos o direito de ser feliz. E teria de falar disto para poder falar de como tudo isto trespassa para a incapacidade de reescrever o final de uma história.
Podia falar de tudo isto e ainda assim ficar muito aquém daquilo que é. Uma pessoa que estava ao meu lado e que nos últimos meses foi constragida a integrar-se numa frame social, a que alguns teimam chamar de realidade, normalidade e outros -lidade que tais, saíu para o fresco da noite, respirou fundo e disse “Já estava com saudades de pensar”.
…
Dos primeiros 10 minutos de filme, após o genérico inicial, apenas recordo gente a falar alto, gente que passa à minha frente, gente que se senta e que se volta a levantar, gente a quem é pedido o bilhete para confirmar que está no lugar certo, gente a quem é pedido que se levante por estar no lugar errado, gente que entra numa fila e, a meio, decide voltar para trás e entrar na seguinte.
Gente que não se cala. Sobretudo gente que não se cala.
Porque a esta gente, quando lhes dá a febre da cultura, não é o verniz que estala, mas a boçalidade que transpira.
Esta foi a segunda vez que estive numa sala de cinema cheia, nesta cidade. A primeira vez que tal me aconteceu foi no TAGV. O filme chamava-se “Os Respigadores e a Respigadora”. Uns tempos antes tinha visto este filme no Avenida, numa qualquer sessão especial, com meia dúzia de pessoas na sala. Nos tempos que se seguiram, a comunicação social foi invadida por excelentes críticas ao documentário da Agnés Varda. Quando o filme voltou a Coimbra, desta vez no TAGV, a sala não tinha meia-dúzia de pessoas: estava cheia. Dessa vez, recordo apenas as gargalhadas da assistência durante todo o filme e que ainda me ecoam e ferem nos ouvidos.
Até hoje ainda não consegui perceber porque é que a imagem de gente que recolhe comida de caixotes do lixo para se poder alimentar é motivo de riso e gargalhada.
Voltando ao “2046″ e ao dia de ontem. ÃÂÃ
¡nico. porque se integra na 5ÃÂú Festival de Cinema Francês. Porque foi uma antes-estreia em Portugal. porque foi uma estreia, no mesmo dia, em França. Porque tão cedo não voltará a estar disponível numa sala de cinema em Coimbra. Voltando a isto e por tudo isto, apetece, por último, perguntar:
Que raio é que uma pessoa que entra numa sala de cinema, já bem depois do genérico inicial de um qualquer filme do Wong Kar Wai ter passado, fica nessa sala a fazer? Como é que uma pessoa dessas se prepara para um filme destes?
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Escrita de bilhete, fila I, lugar 4: Ocupa o tempo do outro. O outro ocupa o teu tempo. Não adies o amor, mas não tenhas medo de o esperar. Se voltares ao passado, que seja para olhar o futuro. É no futuro que compões o passado. Não tenhas medo de amar, mesmo se não és amada. Encontro-te na próxima sessão.
Escrita de bilhete, fila I, lugar 3: Às vezes, de tanto nos dizerem que o céu é azul e que a folhagem das árvores é verde por causa da clorofila, acabamos por acreditar. Às vezes, por estarmos confinados numa determinada frame social acabamos por duvidar que, na verdade, a folhagem das árvores é verde para rimar com o castanho-mel do céu.
Continua a tua viagem, continua a tua viagem pelo teu caminho. Não deixarás ninguém desviar-te, porque eu bem sei que não.
Tu és o meu melhor argumento de que o audiovisual e a qualidade não são antónimos. Na próxima sessão, lá estarei.