Este é um mundo estranho. É suposto, quando tomamos consciência de nós próprios, definir objectivos: uns anos de estudo, um emprego, uma família, uma casa (não necessariamente por esta ordem). Se não o fizermos, outros há que o farão por nós. Os outros tornam-se, então, expectantes, e porque é da natureza humana, cedemos às expectativas dos outros, que também fazem parte de nós.

Uns passam assim pela vida. Outros estipulam como objectivo a conquista da felicidade. Mas para atingir esta felicidade é necessário conquistar ‘coisas’: uns anos de estudo, um emprego, uma família, uma casa (não necessariamente por esta ordem), o nome numa fórmula matemática, uma descoberta científica ou uma invenção. Isto parece tornar tudo mais fácil: se conquistarmos estes objectivos então obteremos a felicidade.

Depois há os outros, os terceiros. Não é fácil reconhecê-los. Até porque os outros, os primeiros, estão sempre demasiado ocupados a tentar atingir os objectivos, e os outros, os segundos, a tentar atingir a felicidade.
Às vezes damos com aqueles outros, os terceiros, de sorriso suave, a olhar atentamente uma plantinha que nasceu de um muro de cimento (não é espantoso?). Outras vezes percebemos que estamos em presença desses outros terceiros, quando tentamos explicar a importância dos objectivos e da felicidade e sentimos que nos olham como se estivéssemos loucos ou como se não nos compreendessem.

Para estes, os terceiros, tudo está bem. O que não significa que passem pela vida de forma amorfa: indignam-se muito e espantam-se ainda mais. Não esperam por lhes darem condições para fazerem coisas. Guiam-se por máximas como “é isto que temos, é com isto que trabalhamos” ou “avaria é fazer as coisas sem condições”, ou ainda “se não temos cão caçamos com gato”.
Estes outros, os terceiros, há muito que recusaram a ansiedade de atingir os objectivos. Há muito que recusaram a obssessão de atingir a felicidade.

É que estes outros, os terceiros, perceberam há muito que o melhor da vida, como em tudo, não é o chegar ao final, mas o processo, o meio, a forma de lá chegar.

Também estes outros, os terceiros, chegarão ao fim da viagem. A diferença é que estes recusaram o lugar de condutor para poderem apreciar a paisagem.

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