Estive muito tempo a olhar para o texto do Paulo, ali em baixo. “É bom ser Português”. É, de facto.
O Paulo explicou muito bem esta coisa da perfeição imperfeita e da imperfeição perfeita.
Isto faz-me lembrar (na altura em que os crentes à minha volta ainda achavam que me podiam ‘converter’) quando as pessoas me perguntavam se eu não queria ir para o paraíso, um lugar onde não precisaria de nada, onde não precisaria de trabalhar, onde teria tudo o que eu quisesse. Claro que, e de forma muito peremptória, eu respondia que não: Se não era preciso fazer nada, o que ía para lá eu fazer? Lembro-me de ficar muito indignada, com esta definição de paraíso.
Devo dizer que isto era considerado escandaloso, ao ponto de ter decidido deixar de dar esta resposta.
Esta questão também me faz lembrar a relação que tenho com a cidade do Porto. Gosto muito, muito daquela cidade. E, no entanto…
dormia num quarto aquecido com uma cama fofinha, levantava-me de manhã, tomava banho e o pequeno-almoço e descia no elevador. quando abria a porta, percebia que nas escadas do prédio em frente tinha dormido uma pessoa… e era isto por toda a cidade.
entrei em bairros sociais, com a miséria desnuda, onde as pessoas vinham à porta olhar para mim ou seguir-me o caminho. entrei em cÃÂâmaras municipais do distrito, fiz peças sobre a gestão dos dinheiros públicos, assisti a conferências de imprensa onde os políticos se gabavam dos seus feitos, vazios de substÃÂância.
E, no entanto, continuo a gostar muito, muito daquela cidade. Contradição? O Paulo explicou muito bem que não.
Fiquei a olhar para o “É bom ser Português” porque ontem, ao ver um debate da RTP1, fiquei estarrecida com o que se foi dizendo por lá. Zita Seabra, editora (da Bertrand, se não estou em erro) dizia, a propósito da discussão sobre a despenalização do aborto, que as mulheres e jovens portugueses estão informados sobre os métodos contraceptivos existentes e que a sociedade evoluiu muito de há 20 anos para cá.
O sociólogo Pedro Vasconcelos, salvo erro, concordou com a evolução, mas contestou esta informação totalitária, de que toda a gente teria acesso à informação e utilização.
A editora virou-se para o sociólogo e disse-lhe que ele não conhecia a sociedade portuguesa, nem as mulheres portuguesas porque “não vai ao cabeleireiro (sic)…” aqui foi interrompida pelo sociólogo, que perante as contradições e argumentos nada razoáveis de duas intervenientes, começava a ficar desesperado…
Também gosto de ser portuguesa. Mas às vezes… às vezes, alguma coisa cá dentro vacila…

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É bom, mas difícil, ser Português
Não percebi a questão da editora e do sociologo. O que querias mostrar?
o que é que eu queria mostrar? acho que precisava desabafar a sensação de vergonha alheia que tive quando ouvi a justificação da editora.
esta senhora estava num debate televisivo e foi escolhida para lá estar porque tem representatividade, porque tem determinada credibilidade, porque já teve responsabilidades políticas na matéria.
o que eu queria mostrar? queria mostrar que quando que ouço uma pessoa, que é contra a despenalização, enunciar os seus argumentos, fico cada vez mais com a sensação de não terem qualquer respeito pelos seus semelhantes.