ÃÂëCom apenas 20 anos, Carlota já era uma figura lendária. Dois meses antes, durante o levantamento de Huambo, tinha chefiado um pequeno destacamento do MPLA que estava cercado por uma força da UNITA de um milhar de soldados. Conseguiu furar o cerco e salvar o seu pessoal. As raparigas dão geralmente soldados excelentes - melhores do que os rapazes, que por vezes se comportam de forma histérica e irresponsável na frente de combate. Ela era uma mulata com um encanto misterioso e, assim nos parecia, de grande beleza. Mais tarde, quando revelei as fotografias que lhe tirara, as únicas fotografias de Carlota que ficaram, vi que não era assim tão bela. Todavia, ninguém o disse em voz alta, para não destruir o nosso mito, a nossa imagem de Carlota dessa tarde de Outubro em Benguela. (…)Quando o comandante Monti, quatro portugueses e um polaco a viram à frente do quartel-general, parecera-lhes bela. Porquê? Porque era nesse estado de espírito que estávamos, porque era do que precisávamos, porque queríamos que assim fosse. Nós criamos sempre a beleza das mulheres e nesse dia criámos a beleza de Carlota. Não sei explicá-lo de outra forma.ÃÂû
Kapuscinski, Ryszard, Mais um dia de vida - Angola 1975, Campo das Letras, Porto, 1998

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